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Fernanda Leão faz da ginecologia um espaço de escuta e autoconhecimento

Especialista em cirurgia minimamente invasiva e endometriose, ela fala sobre ética, empatia e a importância de cuidar da mulher por inteiro

FOTO: Náthan Amorim

Com fala serena e olhar atento ao cotidiano das mulheres, a ginecologista Fernanda Leão de Faria constrói um jeito de cuidar que não separa ciência de humanidade. Entre o consultório que acolhe histórias e a sala cirúrgica que exige precisão, ela encontrou o ponto de equilíbrio de uma prática que une técnica e sensibilidade.

Nascida em Goiânia (GO) e a mais velha de três irmãos, Fernanda iniciou medicina na PUC Goiás aos 17 anos. Nem sempre teve certeza do caminho. “Entrei nova e cheguei a prestar outro vestibular durante a faculdade”, lembra. No internato, a passagem pelo estágio de saúde da mulher uniu peças: a habilidade manual da cirurgia e o vínculo do consultório. Após a graduação, vieram a residência em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), a segunda residência em Endoscopia Ginecológica e o fellowship em endometriose, ambos no Hospital de Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Em 2023, fixou-se em Brasília (DF), onde atende na rede privada de maneira presencial e por telemedicina mulheres de todo o país. Segue também vinculada ao serviço público. “Gosto de pensar que minha função é devolver qualidade de vida e permitir que cada mulher viva por ela, e não pela dor que carrega.”

A escuta, que começou como instinto durante a formação, amadureceu em propósito. “Quando uma mulher senta diante de mim, ela traz mais que sintomas — traz vivências. Eu preciso ouvir para cuidar.” Essa postura, que combina ética e acolhimento, atravessa cada etapa do seu trabalho.

Ginecologia individualizada, leve e sem tabus: essa é a expressão que norteia o trabalho de Fernanda. Isso nasceu do reconhecimento de que cada mulher carrega histórias, dores e prioridades. “Não existe um único protocolo que sirva para todas. Eu e a paciente precisamos alinhar expectativas e chegarmos juntas no que faz sentido naquele momento da sua vida”, afirma.

Em um cenário ainda atravessado por machismo e normalização do sofrimento feminino, a validação vira ferramenta terapêutica. “Muitas ouvem que ‘menstruar dói’, que ‘é assim mesmo’. No consultório, digo: a sua dor não é destino. Vamos nomear o problema e construir escolhas melhores”, diz. O tratamento, reforça, é multidisciplinar — terapia, acompanhamento nutricional, fisioterapia pélvica, acupuntura e atividade física fazem a diferença, sobretudo nas condições crônicas.

Miomas sem mistério: quando tratar e como escolher a via

Tema frequente na prática e nas dúvidas das pacientes, os miomas merecem esclarecimento direto. “São tumores benignos formados a partir do tecido muscular do útero. Sei que o nome ‘tumor’ assusta, mas mioma não é câncer nem aumenta risco de câncer”, contextualiza.

A conduta depende de idade, sintomas, planos reprodutivos e características dos miomas (tamanho, quantidade e localização). Sangramento volumoso, dor pélvica, infertilidade ou perdas gestacionais recorrentes podem motivar tratamento.

A formação de Fernanda em cirurgia minimamente invasiva — laparoscopia e histeroscopia — amplia as possibilidades. “Durante muito tempo, mioma foi sinônimo de histerectomia. Hoje conseguimos poupar o útero quando a mulher deseja, seja por projeto gestacional, ou por sentido de identidade. Podemos realizar a histeroscopia para lesões na cavidade uterina, ou laparoscopia ou cirurgia robótica para miomas maiores, ou de outras camadas. Em muitos casos, é possível controlar os sintomas com medicações, sem a necessidade de abordagem cirúrgica.”

Histeroscopia e laparoscopia: menos trauma, mais precisão e recuperação mais rápida

A evolução tecnológica mudou o curso operatório e o modo de decidir. “Segurança e menor trauma cirúrgico são ganhos centrais. Preservamos estruturas, reduzimos dor e tempo de recuperação”, explica. Na laparoscopia e na cirurgia robótica, pequenas incisões no abdome substituem cortes extensos, enquanto na histeroscopia não há cortes porque o acesso é pelo canal vaginal, com visão direta da cavidade uterina. “Há também um aspecto estético que importa para muitas pacientes. Quando podemos optar por incisões mínimas, isso repercute também na autoestima”, afirma.

Fernanda detalha que a histeroscopia é indicada para pólipos, miomas submucosos, traves uterinas e investigação de sangramentos anormais. “É um procedimento feito com uma micro câmera, por via vaginal, sem cortes e com retorno rápido às atividades, capaz de diagnosticar e tratar condições no mesmo tempo”, explica.

Já a laparoscopia é realizada por pequenas incisões no abdome. “Usamos uma câmera e instrumentos finos para operar com mínima agressão aos tecidos e muita segurança. O resultado é menos dor, menor risco de complicações e uma recuperação muito mais rápida”, diz. Entre os ensinamentos que carrega como preceptora, ela costuma lembrar aos residentes: “Feche essa barriga como se fosse a sua”. A frase resume o cuidado que atravessa a técnica.

Para ela, o avanço técnico tem um impacto que vai além do hospital: “Quando a mulher compreende e é incluída em todo o processo cirúrgico, ela se sente muito mais segura e retoma a rotina e a autoconfiança mais cedo.”

Endometriose: sinais de alerta, diagnóstico adequado e expectativas realistas

Na endometriose, a visibilidade pública recente não apaga o atraso diagnóstico que ainda chega há quase dez anos. “A curva continua lenta. Muitas mulheres passam anos invalidando a própria condição, ou ouvindo que ‘é só cólica’”, diz. Ela explica que os sintomas mais comuns — dor na menstruação, dor pélvica crônica, dor ao evacuar ou urinar, dor na relação sexual e dificuldade para engravidar — merecem atenção e investigação cuidadosa.

O diagnóstico exige exames específicos e executados por profissionais acostumados ao tema. São eles: ultrassom com preparo intestinal para mapeamento e ressonância de pelve com contraste e preparo intestinal.

O tratamento é sempre individualizado e pode ser clínico, cirúrgico ou combinado, a depender de sintomas, impacto na qualidade de vida, idade e desejo reprodutivo. “Cirurgia não é mágica. Ela remove os focos da doença naquele momento, mas é preciso lembrar que a endometriose é crônica. A sustentação clínica — estilo de vida saudável, manejo de ansiedade e estresse — segue sendo base.”

A médica reforça ainda que fatores emocionais e traumas podem influenciar o quadro. “A endometriose é uma doença inflamatória crônica, multifatorial. Há componente genético, hormonal, mas também um elo com o emocional. Quando a paciente entende esse contexto, ela tende a se tornar mais adepta ao tratamento”, explica.

Cirurgia íntima com ética: entre funcionalidade, autoestima e pressão estética

A atuação em ninfoplastia e ginecologia regenerativa vêm com um alerta ético. “Falamos de uma área cercada por tabus e por uma pressão estética alimentada por pornografia e padrões irreais”, observa.

A indicação correta nasce do equilíbrio entre queixa funcional e desejo da paciente. “Há mulheres com assimetrias ou hipertrofias na vulva que apresentam dor ou desconforto no exercício ou na relação sexual, ou deixam de utilizar determinadas roupas de ginástica ou de banho, por vergonha ou incômodo. Nesses casos, a cirurgia íntima pode devolver funcionalidade, trazendo mais qualidade de vida e melhora na autoestima. Mas é preciso lembrar que variações anatômicas existem e que o desejo de mudança deve passar pela própria pessoa, não por pressões externas”, reforça.

Fernanda alerta também para o transtorno dismórfico corporal, quando a mulher realiza vários procedimentos e nunca se sente satisfeita. “É preciso compreender qual a base do incômodo. Às vezes, o que a mulher precisa não é de uma cirurgia, e sim de conversar sobre sexualidade e acompanhamento psicoterápico.”

Sobre os tratamentos regenerativos, ela reforça: “Laser e radiofrequência são grandes aliados e trazem muitos benefícios para as mulheres, especialmente em atrofia vaginal e pós-menopausa”, diz.

Alguns casos marcantes ajudaram a moldar sua forma de atuar, principalmente de mulheres que viviam ao redor da dor. “Entender que por trás da doença existe uma pessoa que merece viver plenamente é o que me move”, reflete.

Entre a técnica e a escuta, Fernanda busca unir os papéis. “Não consigo enxergar só a condição, porque antes do ‘caso’ existe um ser humano. Por isso eu vibro tanto com as conquistas das minhas pacientes.”

Três atitudes que mudam a linha do tempo

O recado para quem busca caminhos mais seguros começa pelo básico. “Primeiro, conheça seu corpo. Nomeie partes, entenda funções, procure informação confiável. Segundo, confie no que você sente: se algo te incomoda, não aceite como ‘normal’ só porque alguém disse. Terceiro, mantenha seus exames e avaliações em dia”, orienta.

A médica acrescenta que prevenção também é autoconhecimento e rotina. “Não basta fazer um exame e esquecer. Saúde feminina é continuidade. Quando a mulher se prioriza, ela muda a própria história.”

Atendimento que une acolhimento e tecnologia

No consultório em Brasília, Fernanda mantém uma rotina que combina escuta, clareza e ambiente acolhedor. “A consulta é um espaço de conversa franca, onde a paciente entende riscos, limites e alternativas. Informação é parte do tratamento”, diz.

Além do consultório, ela atua no serviço público e acompanhando residentes. “Formar profissionais que entendam o valor humano da medicina é tão importante quanto dominar a técnica”, afirma.

O horizonte que Fernanda desenha combina rigor técnico, comunicação clara e responsabilidade no tratamento. “Clareza reduz frustração. Quando a paciente entende riscos, limites e alternativas, ela participa de verdade das escolhas. Essa autonomia compartilhada é parte do cuidado”, destaca.

Em condições como endometriose e miomas, por exemplo, isso significa alinhar expectativas, integrar equipes e sustentar as bases clínicas que fazem a diferença no longo prazo. “Não é sobre prometer o que a medicina não pode entregar. É sobre construir o máximo possível de qualidade de vida, com ética e informação.”

Fernanda ressalta que o autocuidado é fundamental. “Priorize-se. Entenda o seu corpo, reconheça quando algo não vai bem e procure ajuda. Mesmo quando o exame diz que está ‘tudo certo’, o encontro vale para orientação e para traçar novos caminhos. A sua queixa é real. Eu estou aqui para te ouvir”, conclui.

CRM DF 30212 | RQE Nº: 21326 | RQE Nº: 21482

Instagram: @fernanda.leaof

Site: https://drafernandaleao.com

FOTO: Evandro Matheus

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