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Edna Kawakami mostra como psicologia, respiração e neuromodulação apoiam a saúde mental

Fotos: Fernando Zuffo

A saúde mental, muitas vezes, é tratada como algo distante ou apenas ligado à conversa terapêutica. A psicóloga e neuropsicóloga Edna Kawakami mostra que o processo pode ir além. Em seu consultório em São Paulo (SP), ela combina psicologia clínica, neuromodulação não invasiva e terapia pela respiração para atender pessoas de diferentes idades e queixas.

O foco está em integrar ciência, tecnologia e sensibilidade, oferecendo caminhos para quem convive com ansiedade, dor crônica, depressão ou sobrecarga emocional. “Nem tudo é psicológico. Existe também um componente biológico, que precisa ser cuidado para que a mudança aconteça”, explica.

Da UTI à psicologia clínica

A história de Edna começou na enfermagem. Ainda estudante, aprendeu a instrumentar neurocirurgias ao lado de dois médicos – experiência que despertou sua curiosidade pelo cérebro humano. Depois da formatura, atuou em pronto-socorro, unidade cardiológica, terapia intensiva e até em transplante hepático. Foram quase 15 anos dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), marcando profundamente sua trajetória. “Eu sempre me perguntava: onde foi que essa pessoa pegou o caminho que a levou até aqui? O que antecedeu a doença?”, relembra.

Esses questionamentos a levaram a novos estudos. Fez cursos em acupuntura, psicanálise e, finalmente, formou-se em psicologia. Durante a graduação, aproximou-se da neuropsicologia e do uso de tecnologias no tratamento, como o neurofeedback. A afinidade com aparelhos e resultados objetivos — herança dos anos em terapia intensiva — a guiou até a neuromodulação, área em que hoje é palestrante em congressos e referência em prática clínica.

Neuromodulação e sua aplicação prática

Explicar a neuromodulação de forma simples não é tarefa fácil, mas Edna resume com clareza: “Trata-se de estimular o cérebro com correntes ou ondas magnéticas, de forma indolor e segura, para regular o funcionamento das células nervosas.”

Existem dois principais métodos: a estimulação por corrente contínua (tDCS), que atua na membrana celular, e a estimulação magnética (TMS), que alcança regiões mais profundas. Em ambos os casos, o objetivo é facilitar a comunicação entre neurônios, acelerar processos e ativar áreas relacionadas à atenção, ao humor e ao planejamento.

As aplicações são variadas. Na ansiedade, que representa a maior parte da demanda, os efeitos costumam aparecer em uma semana de tratamento. Nos casos de fibromialgia, os ganhos envolvem diminuição da dor, melhora do sono e redução dos sintomas depressivos em poucas semanas. Já na depressão recorrente, o processo é mais longo – mas associado à psicoterapia se torna mais eficaz. “Enquanto modulo, o paciente processa suas frustrações com mais facilidade. É como se a caixa de Pandora se abrisse sem tanta resistência”, comenta.

Casos concretos marcam sua trajetória. Um deles foi o de um jovem de Campinas (SP), extremamente ansioso, que se deslocava diariamente a São Paulo para as sessões. Em três semanas, já havia retomado os estudos e reorganizado sua vida. Outro exemplo foi o de uma paciente com fibromialgia, que chegou à clínica em depressão após uma separação e sobrecarga familiar. “Aos poucos, ela entendeu que não precisava encarar tudo a ferro e fogo. Aprendeu a brincar mais com a vida e a rir de si mesma”, relata.

Além dos adultos, adolescentes também chegam em busca de ajuda. Muitos apresentam dificuldades de atenção na escola ou ansiedade em competições esportivas. “A pressão por desempenho é enorme, e os jovens acabam esgotados. A neuromodulação ajuda a reduzir essa ansiedade e a ativar a região frontal, ligada ao foco e à concentração”, explica.

Fotos: Fernando Zuffo

Respiração como caminho para os traumas

Se a neuromodulação atua no nível biológico, a terapia pela respiração conduz a um mergulho simbólico e emocional. Edna utiliza a hiperventilação em grupo como forma de acessar traumas que não são conscientes. “O corpo guarda memórias que não têm linguagem. A respiração permite acessar essas sensações e liberar aquilo que ficou preso”, explica.

Um dos exemplos mais citados por ela é o do nascimento. Isso porque o parto seria nosso primeiro trauma: de um ambiente protegido, o bebê passa a viver a pressão de sair para o desconhecido. Ao reviver simbolicamente essa passagem pela respiração, muitos pacientes compreendem angústias antigas. “É comum que alguém comece a gritar e outros o acompanhem, porque o corpo reconhece esse alívio. É um processo de ressignificação”, descreve.

No dia a dia, Edna orienta exercícios simples: parar alguns minutos, observar a respiração, soltar o peso das costas e permitir um suspiro profundo. “Um suspiro é um carinho para o coração. Pequenos gestos ajudam a liberar a tensão acumulada”, afirma.

Humanização no atendimento e olhar para o futuro

Combinando recursos técnicos e escuta ativa, Edna enfatiza a importância de respeitar a linguagem de cada paciente. “O ser humano é simbólico. Cada um fala de um jeito, e a primeira tarefa é entender essa linguagem”, diz. Com adolescentes, recorre ao humor e à curiosidade para engajar. Já com idosos, adota mais cuidado, pois muitos carregam defesas ou preconceitos em relação à psicologia. “Ainda é comum ouvir: ‘não sou louco’. Eu brinco que ainda bem, porque não trato louco. Essa leveza ajuda a quebrar resistências”, comenta.

Na clínica, Edna integra sua atuação com outros profissionais da saúde, fortalecendo a visão multidisciplinar. Para o futuro, deseja aprofundar-se em estudos sobre potenciais evocados, como o P300, ferramenta que pode indicar alterações cognitivas de forma mais objetiva. “Seria uma forma de unir avaliação neurofisiológica com a neuromodulação, ampliando a precisão dos tratamentos”, reflete.

Mais do que tecnologia, ela acredita que o cuidado começa pela consciência de si. “Se a terapia tradicional não traz o resultado esperado e a medicação não resolve, procure um neuromodulador. Respire, perceba como está seu corpo e permita-se dar um suspiro de tempos em tempos. Pequenos gestos fazem grande diferença.”

CRP: 6-111.295 COREN: 35.817

Instagram: @kawakamiedna

Site: https://quantaclinica.com.br 

Fotos: Fernando Zuffo

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