Um dos dos maiores atores do Brasil, Tony Ramos (77) tem despertado sentimentos que, até então, as pessoas não estavam acostumadas a sentir por ele. Ou melhor, por um personagem vivido por ele. No ar em Quem Ama Cuida, novela das 9 da TV Globo, o artista provoca reflexões ao interpretar Otoniel, homem bom, trabalhador, íntegro, mas que não lida bem com a sexualidade do neto, Mau Mau, interpretado por João Victor Gonçalves (23). “Que bom que as pessoas estão com raiva, é um ótimo sinal. Está cumprindo a função. Como ator, a mensagem chegou. Agora, como o cidadão chamado Antônio, é um outro homem, né? Um homem que nunca teve preconceito, o discurso é outro. Mas que bom que desperta essa revolta, ira, incômodo”, celebra o veterano, em entrevista exclusiva à CARAS, nos Estúdios Globo.

Tony Ramos. Foto: Marcio Farias

Preconceito

Pernas cruzadas, dedicação à culinária, gestos com as mãos… Tudo isso, quando vem do neto, incomoda Otoniel, que se defende como alguém de valores rígidos. “Em resumo, é ignorância. Ignorar, do latim, quer dizer não saber. O problema é quando a ignorância vira preconceito e intolerância. No passado, faziam piadas agressivas com homossexuais.. E ficava por isso mesmo. Hoje, discute-se como começar a aprender aquilo que não se conhece”, adianta o ator. E assim será com o personagem ao longo da obra. “Ele foi criado em outra época. É querer demais de um homem de classe média baixa, que, de repente, vire um filosófo contemporâneo. Isso ele não é. Aos poucos, daí vem o valor didático, sem ser chato, que a novela pode ter, de mostrar a transformação dele”, avalia.

Tony Ramos. Foto: Marcio Farias

Além do entretenimento

Otoniel representa um pensamento ainda comum em muitas famílias. “Mas é preciso mostrar a verdade, sem impor. A pessoa deve ter tolerância, não ignorar mais e entender os novos tempos. Não quer dizer que ela, por causa disso, vai virar homossexual. Porque existe o discurso de que se trata de uma propaganda. Não, é entender seres humanos. ‘Ah, mas não está escrito’. Quem disse? Como você usa a palavra das Sagradas Escrituras ao seu bel-prazer? As Escrituras têm entendimentos, compreensões. E, muitas vezes, isso tudo é usado de uma forma intolerante”, observa ele, feliz com a repercussão. “Tudo é fruto de movimentos e mudanças. Eu não tenho um compromisso de impor verdades ou fazer com que elas sejam definitivamente apoiadas pela sociedade por meio de uma novela. Assim como eu nunca acreditei que uma novela, peça ou filme mudará o mundo. Mas a cultura, como um todo, muda o mundo, faz raciocinar, refletir. É o que espero”, afirma.

Tony Ramos. Foto: Marcio Farias

Sem redes sociais, Tony sabe da repercussão na internet por meio dos colegas. “Os depoimentos que recebo são na vida real, no aeroporto, no posto… Outro dia, uma pessoa falou: ‘Nunca imaginei que você diria isso. Coitado daquele menino.’ Ou seja, a novela provocou nela a reflexão e a constatação de como homossexuais são agredidos neste mundo de Deus, e de um Deus que acolhe a todos”, salienta.

Criação

Consciente de quem é, o ator destaca que pensa diferente de Otoniel e credita isso à educação que teve da mãe, Maria Antonia (96), e da avó Maria das Dores. “Fui criado por uma professora, que me educou sozinha, com o auxílio de minha avó. Quando minha mãe se separou do meu pai, eu não tinha nem 3 anos. Essas duas mulheres são muito importantes na minha vida. Este homem que sou foi formado por elas. Tive um lindo berço”, conta o paranaense. Para ele, a educação é o caminho para combater o machismo, a homofobia e outros preconceitos. “É o caminho fundamental para alertar sobre o respeito a todos de maneira geral. Sou um homem da escuta. Aliás, meu espetáculo com a Denise Fraga, O Que Só Sabemos Juntos, discute isso: a falta de escuta entre nós. Hoje, muitas vezes, isso se deve às redes sociais. Hoje, é o próprio umbigo que manda: eu e o meu mundo, o outro mundo eu vejo depois. E não tive isso na minha infância e adolescência, pelo contrário. Então, quem eu sou, esse homem que pensa no melhor para todos, para a população, para um país melhor, mais justo, com melhores salários para todos… é oriundo daquela casa de classe média baixa, criado por duas mulheres”, aposta.

Tony Ramos. Foto: Marcio Farias

Mão na massa

Se para Otoniel cozinha é lugar de mulher e é um problema ver o neto comandando as panelas, para o intérprete é diferente. “Eu via a minha avó cozinhando e perguntava como ela fazia, queria aprender, era importante saber me virar caso um dia fosse morar sozinho. Jamais teria esse pensamento do Otoniel”, diz o artista, lamentando saber que ainda há pessoas capazes de definir tarefas como exclusivas para homens ou mulheres. “É uma pena. Mas a mudança vem aos poucos. A mudança dos tempos é algo irreversível”, acredita.

Tony Ramos. Foto: Marcio Farias

Encontro de gerações

Avô de Henrique (27) e Gabriela (22), ele tem uma ótima relação com a nova geração. “Aprendo com todos. Com meus colegas de cena, aprendo posturas, novos termos. Com meus netos, aprendo sobre quais são os novos sonhos, porque ainda tenho os meus sonhos. Digo ‘ainda’ porque já vivi muito e realizei muitos deles. Converso com meus netos sobre a vida deles e, ao mesmo tempo, não dou indiretas, não pergunto da namorada nova, se está com namoradinho. Não há possibilidade de eu perguntar isso. Eu espero que eles falem. Respeito a privacidade de cada um. Eles me perguntam coisas, e respondo. Assim tem que ser a vida: ouvir, falar, falar, ouvir, e não só falar. A escuta é fundamental, ainda mais dentro de casa”, avalia.

Tony Ramos. Foto: Marcio Farias

Seguindo os passos artísticos do avô, Gabriela estuda fora. “Não é só para ser atriz. Ela estuda de forma mais ampla, porque toca piano, canta. É chato falar isso, parece que estou falando da neta como um babão. Não sou babão, sou amoroso. É diferente de ficar babando e não enxergar os defeitos. Eles têm lá os seus defeitos, como também tenho”, diz.

Humano

Com uma imagem ilibada, Tony não gosta de ouvir que as pessoas o consideram perfeito. “A palavra ‘perfeito’ é um horror. Assim como a verdade absoluta. Não prejudico ninguém, não quero nada daquilo que não seja meu. Não tenho inveja de nada nem de ninguém. Construí meu caminho a duras penas, não caiu da mangueira. A minha trajetória foi arduamente trabalhada, fazendo teatro e TV ao mesmo tempo durante 20 anos. Hoje, faço teatro mais eventualmente, quando algum tema me interessa. Faço novela porque adoro. Não tem esse negócio de inveja, coisa miúda, burra. Aliás, se começa uma conversa em uma roda falando de alguém, eu saio. Primeiro, porque não quero entrar naquela polêmica. Segundo, porque não me interessa, a não ser quando se trata de coisas graves, quando um político fez alguma coisa, algo que saiu no jornal. Aí é outra coisa”, explica ele, que revela um de seus defeitos. “A minha gaveta é muito desarrumada. Não sei onde botei tal documento e preciso da ajuda da Lidiane. E ela fala: ‘Você sempre diz que vai arrumar essa mesa. Passa ano, vem ano, e você não arruma. Olha aqui a pasta’ (risos). São defeitos assim. Tenho consciência de que não sou um mau marido, pai ou avô”, garante.

Tony Ramos. Foto: Marcio Farias

Projetos

Além da novela, este ano o ator estreia o filme Se Eu Fosse Você 3 e planeja voltar aos palcos com a peça O Que Só Sabemos Juntos. Assim que o folhetim acabar, ele começa a rodar o longa Prova de Amizade, ao lado de Antonio Fagundes (77). Sonhos não lhe faltam. “Quero fazer coisas de que realmente goste muito, seja na TV, no teatro ou no cinema, textos que me movam, como está me movendo o Otoniel. Ideias que me movam junto ao espectador para que eles reflitam sobre a temática proposta. Pegar pelas mãos a minha amada companheira e viajar um pouco mais, mas, com novela, viajar o máximo que eu consigo é de casa até os Estúdios Globo (risos)”, brinca. Questionado sobre qual legado gostaria que o público associasse ao seu nome, ele é certeiro: “O que quero deixar para quem assiste a mim chama-se ética, responsabilidade, disciplina, afeto e respeito”.