A livraria Argumento, no Leblon, e o Café Severino, dentro do local, são lugares aos quais Isabel Teixeira (52) recorre quando quer descansar. Amante de livros — a atriz tem uma editora em casa —, ela gosta de passar um tempo ali, lendo e tomando um latte. Gravando de 2ª a sábado a global das 9, Quem Ama Cuida, ela respira a novela quase 24 horas por dia! Mas, mesmo com a agenda corrida, está feliz. Há quatro anos, deu vida a Maria Bruaca, personagem que arrebatou o público no remake de Pantanal. Agora, com outro sucesso nas mãos — a vilã Pilar —, ela fala de suas conquistas com os pés no chão e ciente de que sua caminhada ainda lhe reserva muitos aprendizados e desafios. “Esse ‘chegar lá’ é uma sentença de morte. Porque você chega e vai fazer o quê? Morre. Quero sentença de vida. O importante é o caminhar. E não existe um caminho certo. Cada um faz o seu”, diz ela, em papo exclusivo com CARAS.

Amando ser odiada
O sucesso da personagem é tamanho que, entre uma foto e outra na livraria, alguém parava para comentar as maldades da madame. Na academia, por exemplo, ninguém quer revezar aparelho com ela! “As pessoas demoram um pouco para separar a atriz da personagem. É interessante. A pessoa me vê e pensa: ‘Que legal’. Só que ela me odeia, fica nessa dúvida. Estou adorando ser xingada”, garante ela, encarando essa repercussão como uma maneira de catalisar o ódio nacional. “É até uma função social! A gente vive situações difíceis, coisas que geram raiva. Às vezes, você passa um dia inteiro trabalhando e sendo injustiçado por uma estrutura social que também dá raiva. E é bom descontar em uma obra de ficção, junto com todo mundo. Está permitido se reunir para falar mal da Pilar. É bom porque você solta a raiva e se diverte”, acredita.
Para ela, uma personagem como Pilar é um prato cheio para sua vivacidade. “Fazer novela é um parque de diversões. Gosto de fazer porque é um cotidiano de decorar texto, escaletar o bloco novo, gravar. Gosto de assistir”, conta.

Com os pés no chão
Apesar de todo o sucesso, a paulistana nunca teve olhos para a fama. “O deslumbramento é um passo para a frustração. Tudo é uma onda. O deslumbre é acreditar que só tem dia bom. No trabalho, às vezes, você passa um dia incrível e depois um dia péssimo, fazendo a mesma coisa. Se isso é maturidade, estou bem madura”, analisa ela, que, além do trabalho na TV, tem um currículo irretocável nos palcos, com mais de 40 anos de atuação no teatro. E por falar em maturidade, Isabel diz que o tempo lhe deu vigor diante da vida. “Dá uma mudada, uma acalmada. Não significa que você vai ficar sentada em uma poltrona. É dar uma acalmada no deslumbre. É alegria e frustração. E o legal é se apoiar no trabalho, porque não dá para ficar cem por cento bem todo dia”, avalia.
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Pegando sol de fresta
O caminho para chegar à TV foi longo e a metáfora ‘pegar sol de fresta’ define bem esse percurso. Qualquer fresta que abria, ela ia lá e tomava sol, fazia o seu melhor. E quando se abriu um janelão como é a vitrine da TV Globo, ela lembra que aprendeu, de uma vez por todas, a tomar sol de fresta, afinal, sol demais pode queimar. “O que as pessoas imaginam? Que eu virei o quê? Uma pessoa que fica fazendo banho de espuma 24 horas e sendo servida? Isso não existe. Eu sou uma operária”, afirma ela, sem deixar de reconhecer a estabilidade que a TV traz.
“Não preciso de muito para viver. Sempre escutei as minhas necessidades e trabalhei para elas, às vezes, com cinco empregos. Só a peça não fechava meu mês. Então, eu dava aula, escrevia outra peça, ajudava na iluminação. Esse conjunto de trabalhos fez com que eu criasse dois filhos. Claro que, com meu ex-companheiro, Roberto Setton, nós criamos dois filhos trabalhando no que gostamos, e não são profissões que dão uma grande estabilidade financeira. Então, isso não vira o principal da vida. Hoje estou menos vulnerável, é diferente”, afirma ela, que passou por perrengues quando vivia de teatro e torce para que as leis trabalhistas protejam mais os artistas. “Eu não acredito que a vulnerabilidade crie arte boa. Quando estive mais vulnerável, não tinha mente para criar. Só estava na pressão do dia a dia, do mês que vai te esmagar, das contas para pagar”, recorda.

Maturidade
Quando estava quase chegando aos 50, Isabel abriu mais uma frente de trabalho com a TV. Enquanto muita gente pensa em desacelerar, a atriz, dramaturga e diretora nunca esteve tão ativa e criativa. “Estou no meu tempo. Hoje em dia não tem mais essa diminuição. Nesse mundo de hoje, de muita informação, a maturidade é um tesouro. Não é que a gente esteja na descendência, a gente acalmou, vai fazer uma coisa de cada vez. Acho isso salutar para a humanidade. A nova juventude é depois dos 50”, diz ela, vivendo sua fase mais potente.
“Acho que nasci querendo ter essa idade, a idade à qual nem cheguei ainda. Quero viver muito. Quero envelhecer. Se eu não envelhecer, é porque alguma coisa cortou o meu caminho. Quero ficar velhinha. E, se quiser ficar velhinha cheia de procedimento, é o jeito que quero! Se eu quiser plantar mandioquinha no alto do morro de Minas, é para lá que vou. Está bom para mim. Cada um tem a liberdade de envelhecer como quiser, mas envelheça”, diz.

Seu tempo é hoje
O reconhecimento em nível nacional veio na maturidade, mas, para ela, não foi tardio. “Não estou romantizando, dizendo que viver é bonitinho, mas tudo o que me acontece, de certa forma, é perfeito. Até as dores, as frustrações, os momentos mais difíceis, porque aprendo com eles. Mas não tem hora certa. Isso é uma coisa cultural que a gente devia, coletivamente, desfazer: a ideia de uma pessoa que se descobre artista aos 60 anos e implode, em vez de explodir”, reflete.
Para Isabel, sempre é hora de fazer o que se quer. Prova disso é que, durante esse ensaio, entre um papo e outro, ela teve a ideia de fazer faculdade de Jornalismo. “Posso tocar um instrumento, fazer parte de uma banda, terminar e falar: ‘Não quero mais fazer isso, vou construir outra coisa’. O que tem de certo é esse encaixe de seguir o coração e não pensar com a ideia dos outros. Se isso faz sentido para você, não tem hora certa.”

Saúde
Desde quando foi diagnosticada com a síndrome de Li-Fraumeni, uma condição genética rara e hereditária que aumenta o risco de desenvolvimento de diferentes tipos de câncer, Isabel mudou a rotina. Pensando na longevidade, parou de fumar e cuida mais da alimentação. “É o problema gerando um conhecimento, uma descoberta”, diz ela, que treina todo dia antes de gravar. “Estou viciada em academia. Eu preciso me movimentar. É bom, a energia renova”, conta.

Vaidade
Ao contrário de sua personagem Pilar, que ao ouvir falar de rugas tem gatilhos, a atriz passa longe de neuras com as marcas de expressão. “Às vezes, eu me incomodo um pouco com o pescoço, que envelhece primeiro, você sente que a pele está mais flácida. Adoro passar cremes, eu sempre passei, desde os 12 anos. Adoro ir à dermatologista e ter a listinha nova, conhecer produtos”, conta. “Com a minha síndrome, não é tudo que posso fazer… Eu quero estar viva. Quero beleza celular e, às vezes, talvez ela não aconteça. Talvez a minha beleza celular seja outra, e eu tenha que lidar com isso. Não com o envelhecimento, mas com a morte. O envelhecimento é uma preparação para a morte. Talvez eu tenha que lidar com isso daqui a pouco. Então, que beleza eu quero ter? A beleza que eu consigo olhar para dentro. Porque a de fora eu não vejo, não me olho no espelho 24 horas por dia. Eu gosto de olhar para dentro”, afirma.

Apesar de valorizar a beleza interna, ela não é contra procedimentos estéticos e cirúrgicos. “Se te deixa triste, mexe. Com segurança, mas mexe. Se você não pode, dança. Dançar é grátis (risos)”, diverte-se. “Acredito que a felicidade não custa. A pessoa está infeliz com o corpo e não tem dinheiro para procedimentos, mas descobriu que no parque, todo sábado, tem dança de salão. E isso faz a beleza aparecer, o movimento. E, para você, pode ser outra coisa, pode ser crochê, pintura. É dessa beleza que estou falando.”

Férias?
Representando uma das personagens centrais do folhetim, Isabel se pegou tirando um cochilo em pé no estúdio! Ela nunca trabalhou tanto, mas está felicíssima. Workaholic, quando não está no ar, está no teatro ou no cinema. E, mesmo quando está na TV, não se afasta totalmente dos palcos, já que escreve e dirige peças. Férias não existem em seu vocabulário. “Não quero tirar férias. Quero visitar meu filho que mora fora. Férias, para mim, às vezes é vir aqui tomar um café. Não tiro férias faz tempo. Fui me apresentar com a peça Jandira – Em Busca de um Bonde Perdido em Fortaleza e descansei trabalhando. Agora, se eu conseguir desenvolver isso de dar uma dormidinha em pé, ninguém me segura. Posso gravar 24 horas por dia direto (risos)”, brinca ela, sempre em movimento. “Adoro cuidar da casa, cozinhar, fazer faxina, lavar louça”, diz.

Família
Morando no Rio, ela recebe visitas da filha, Flora, que ficou em SP, e do filho, Diego, que após temporada nos EUA, embarca para ficar dois anos na Coreia. “Fico com o coração pequeno, mas vou fazer o quê? É a vida dele”, explica. Já a caçula segue os passos da mãe na arte. “Não acredito que talento seja coisa de DNA, acho que a pessoa nasce, é vocação”, afirma.

Assim como a herdeira, Isabel é filha de atriz — Alexandra Corrêa. “É uma continuidade. Ela ficaria feliz com o meu caminho, do mesmo jeito que fico feliz ao pensar no dela”, diz. E se depender de Isabel, esse caminho será longo. “E ao mesmo tempo, se acabar amanhã, diga que fui feliz, que eu vivi mesmo”, finaliza.
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