Na contramão da ideia de que envelhecer é desacelerar, Claudia Raia (59) vive um dos momentos mais criativos da carreira. Prestes a completar 60 anos, a atriz está em turnê pelo Brasil com o musical Tarsila, a Brasileira, no qual protagoniza e produz a montagem sobre a pintora Tarsila do Amaral (1886-1973). Além disso, está no ar na Netflix com a série Fúria e estreia no comando do reality Sua Mãe Te Conhece?, também no streaming.
Na agenda, já estão programadas a gravação de um longa produzido pelo primogênito, Enzo Celulari (29), e o musical O Diabo Veste Prada. Parece pouco? Não para ela, que ainda se dedica à criação do caçula, Luca (3), ao lado do seu parceiro de vida e de palco, Jarbas Homem de Mello (57). “Talvez eu esteja vivendo o momento mais frutífero da minha vida”, avalia a artista, com a certeza de que a idade está longe de ser um ponto final. “Estou no meu segundo ato. Depois ainda tem o gran finale. Tem coisa à beça ainda. Vou até os 120 anos, já combinei com Deus”, diverte-se ela, em papo exclusivo com CARAS no Fairmont, no Rio de Janeiro.

NOLT
Durante a conversa, a estrela se orgulha ao dizer que se considera uma NOLT, sigla para New Older Living Trend, referência a uma nova forma de envelhecer. “É um novo jeito de ver a mulher dos 60 anos. A indústria também está mudando, tanto no audiovisual quanto no teatro. No teatro, não fico esperando que me deem papéis, porque é difícil ter uma protagonista com essa idade, ainda mais em musical. Então, vou atrás dos meus papéis e produzo isso”, diz ela.

Tarsila
E foi justamente isso que aconteceu com Tarsila, a Brasileira. Após pedido de Tarsilinha, sobrinha-neta da pintora, a artista colocou de pé um espetáculo grandioso. “Era uma mulher transgressora, corajosa, à frente do tempo dela. Fico feliz de contar essa história justamente neste momento em que a mulher está encontrando um novo lugar. Está começando a ser respeitada. Ainda tem muito chão pela frente, mas estamos em um bom caminho”, acredita ela, que após sucesso no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, volta à cidade em setembro, com apresentações no Vivo Rio. E até o fim do ano, ainda percorrerá Recife, Porto Alegre e Curitiba.
Mais lidas

Perfeição inalcançável
No auge da vida, a atriz se sente em constante aperfeiçoamento. “Tem coisa que só comecei a entender agora. Fui criada na perfeição. Sou bailarina clássica, tudo tem que ser perfeito, não pode ter defeito. Descobri que essa perfeição não existe, é inalcançável. É uma utopia achar que você vai chegar a esse lugar. Não vai. É um caminho de frustrações, e a gente acaba sendo pouco gentil consigo mesma”, analisa.

Tempo de qualidade
Em tempos de burnout, a artista se preocupa com a saúde mental e mesmo com diversas produções em andamento, mudou a maneira de encarar a rotina. “Estou trabalhando muito, mas estou fazendo coisas que nunca fiz, como tirar uma hora, uma hora e meia para estar com o Luca. O Luca começou a me rejeitar, virar a cara para mim. Ele me olhava e estava escrito na cara dele: ‘Jura que você me teve aos 56 anos e você não tem tempo pra mim?’ E é verdade. Eu não posso não ter tempo para ele, até porque ele é que me recarrega. São meus filhos que me recarregam”, diz a mãe de Enzo, Sophia (23) e Luca.
“Não quero ser multi, quero estar presente em cada coisa que faço. Esse foi um grande aprendizado, porque sempre fui de fazer 20 coisas ao mesmo tempo. Para quê? Não estava inteira em nenhum dos lugares, essa é a verdade”, reconhece.

Parceiro de vida
Seu marido teve influência nessa mudança e foi ele quem a ajudou a desacelerar. “Ele é mais calmo do que eu. E me ensinou a não fazer nada. Porque os homens têm a prateleira do nada. A gente, não. A mulher está sempre fazendo alguma coisa, criando um projeto, pensando em ligar para a escola do filho. Ele me ensinou um pouco isso. Eu tinha três telefones; ele tirou dois e me deixou com um só. Tenho ali um apoio. Ele me dá limites, e isso é muito legal”, elogia.

Match perfeito
Contrariando o que muita gente pensa, os dois provam que marido e mulher podem, sim, trabalhar juntos. “Faço um paralelo com a Tarsila e o Oswald de Andrade, que tinham uma coisa muito entusiasmante juntos, uma dupla explosiva. Com o Jarbas é a mesma coisa. A gente passa 24 horas junto, faz aula, ensaia. Só malhar que não. O resto é tudo junto e é uma delícia. Sem briga. A gente não enjoa um do outro”, conta ela, que atua com o eleito no musical.

Maturidade
A maturidade também trouxe mais calma para a paulista, que se sente na melhor versão de si mesma. “Fiquei do meu tamanho agora. Eu vazava para fora, sobrava Claudia. As coisas estão se ajeitando de uma maneira mais calma, mais leve, em paz”, avalia ela, em constante evolução.
“Tenho percebido que as pessoas estão cada vez mais resistentes a estudar, a se aperfeiçoar. E não é só a geração nova, não. É uma característica geral, inclusive da minha geração. Parece que as pessoas chegam aos 50 anos e se acomodam. Os filhos saem de casa, tem aquele marido que mal olha na sua cara, você se olha no espelho e não se reconhece, se vê mais inchada por causa da menopausa. Aí pensa: ‘Tá bom, vou sentar no sofá e vou morrer’. Na hora em que você para de fazer planos, morre um pouquinho a cada dia. O casal tem que ter planos, você tem que ter planos individualmente, profissionais, coisas para alcançar.”

Inspiração
Prova viva de que nunca é tarde para realizar sonhos, a atriz virou referência para outras mulheres. “Essa é um pouco a minha função nas redes sociais. Muitas mulheres falaram comigo: ‘Levantei do sofá e fui fazer a minha casa de bolo, que eu sempre quis’. É legal saber que estou encorajando outras mulheres. Como aconteceu com a gravidez, que era um sonho de longo prazo. E não precisa ser exatamente a gravidez, pode ser qualquer outra coisa. Muitas mulheres nem tentavam porque ouviam dos médicos que, depois dos 35, 40 anos, era muito difícil. E quantas engravidaram depois que engravidei. Algumas conseguiram, outras não. É a vida. É assim, inclusive, com mulheres jovens. Acho que uma das minhas funções é alertar a mulher sobre o prazer feminino, mostrar que a menopausa não é o fim, é o recomeço”, diz.

Tempo de celebração
E se no passado Claudia não sabia celebrar o sucesso, hoje, prestes a completar 60 anos, faz questão de comemorar as conquistas. “É triste porque aconteceu um monte de coisa legal e não celebrei, porque fui criada para trabalhar como uma formiguinha. Eu curti pouco o meu sucesso, quase nunca prestei atenção nele. Na verdade, eu não acredito no sucesso, não confio nele”, afirma.

Amor pelo ofício
Diante de tantas transformações, o frio na barriga segue o mesmo! Mais de 140 mil pessoas já assistiram ao musical e, a cada nova apresentação, ela ainda se pergunta se o teatro vai lotar, se vai dar conta, se vai dar tudo certo. “É um projeto que já se mostrou, mas isso não é uma cartilha. O que mantém esse friozinho na barriga é o amor pelo meu ofício. Eu adoro fazer o que faço, cada vez curto mais. E agora essa coisa de celebrar o sucesso… agora eu sou uma celebradora. Estou assim: ‘Isso, Claudia! Arrasou! Acertou!’. Estou em tempo de celebração”, conclui.
Comentários
O que você achou dessa matéria?
Participe da conversa
Entre ou crie sua conta para deixar um comentário.