Cleiton Naves une trajetória pessoal e atuação como cirurgião de coluna

Médico ortopedista fala sobre trajetória, experiência como paciente, tecnologia e cuidado diante da dor

Fotos: TV Notícias

A coluna guarda histórias que nem sempre aparecem nos exames. Em alguns pacientes, a dor altera o sono; em outros, reduz a autonomia, afasta do trabalho, limita encontros em família e transforma movimentos simples em decisões difíceis. É nesse ponto, entre técnica, responsabilidade e vida real, que Cleiton Naves constrói sua atuação como médico ortopedista e cirurgião de coluna vertebral.

Natural de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, ele cresceu em uma família simples. O pai era operário, a mãe dona de casa, e a medicina não fazia parte de uma tradição familiar. No ensino médio, chegou a considerar a engenharia, impulsionado pela facilidade com as exatas, mas percebeu que havia algo essencial em sua personalidade: o interesse genuíno por pessoas.

“Eu sempre gostei muito de conversar e de ouvir. Em algum momento, percebi que a medicina poderia unir a parte técnica, que também me atraía, com esse contato humano”, relembra.

A escolha exigiu persistência. Aprovado inicialmente em uma faculdade privada, não pôde ingressar por limitações financeiras. Dedicou mais um ano aos estudos até conquistar uma vaga na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), mudando-se para a capital fluminense e iniciando uma trajetória que, aos poucos, se voltaria para a coluna vertebral.

A própria história como ponto de partida

A relação com a coluna não surgiu apenas nos livros. Cleiton conviveu, desde jovem, com um problema na região, passou por fisioterapia, pilates e, posteriormente, também foi submetido a cirurgia. A experiência como paciente trouxe uma percepção mais profunda sobre dor, limitação e medo.

Durante a graduação, interessou-se pela neurologia e acompanhou a neurocirurgia por cerca de dois anos. Apreciava a complexidade do sistema nervoso, mas buscava uma área em que pudesse manter maior vínculo com pacientes conscientes de sua jornada de tratamento. A coluna apareceu como esse ponto de encontro.

“A coluna reunia algo que eu estudava com algo que fazia parte da minha vida. Eu tinha interesse pela parte neurológica, mas também conhecia de perto o que é viver com uma doença na coluna”, conta.

Para ele, a vivência pessoal não substitui a técnica, mas amplia o olhar. Um exame pode indicar alterações importantes, mas não traduz, sozinho, como a dor impacta a rotina, a disposição, a autoestima e as relações.

Formação no INTO e responsabilidade clínica

Após a graduação, Cleiton ingressou no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), onde realizou residência em ortopedia, subespecialização em coluna e mestrado profissional. A instituição teve papel decisivo em sua formação, principalmente pelo contato com deformidades graves, doenças raras e casos complexos vindos de diferentes regiões do país.

“O INTO foi uma grande escola. Ali, o médico entra em contato com casos complexos, deformidades graves e doenças raras. Isso forma não apenas a parte técnica, mas também a responsabilidade diante de cada decisão”, afirma.

No mestrado, dedicou-se ao estudo da osteoporose e da consolidação óssea em cirurgias de coluna, buscando compreender como fatores clínicos interferem no resultado biológico dos procedimentos.

Essa visão acompanha sua prática diária. Para Cleiton, a cirurgia começa muito antes do centro cirúrgico, envolvendo indicação adequada, preparo do paciente, avaliação de riscos e acompanhamento pós-operatório.

Quando a dor muda a rotina

Dor lombar, hérnia de disco, formigamento, dormência, perda de força e dificuldade para caminhar estão entre as queixas mais frequentes em seu consultório. Muitas vezes, o paciente chega após meses, ou anos, tentando conviver com o problema.

Com o tempo, a dor passa a reorganizar a vida. A pessoa evita compromissos, reduz atividades e passa a calcular cada movimento. Em quadros mais intensos, o impacto se estende ao humor, ao sono e à convivência.

“A pessoa só percebe o valor do movimento quando perde parte dele. Quando volta a caminhar melhor ou sente menos dor, a melhora aparece na vida cotidiana, não apenas no exame”, reflete.

Um caso, em especial, marcou sua trajetória: um paciente idoso com estenose grave do canal vertebral, que já não suportava a dor. A família demonstrava receio diante da cirurgia, mas o sofrimento havia se tornado central em sua vida.

“Quando alguém diz que prefere não viver a continuar com aquela dor, fica claro que não estamos tratando apenas uma coluna. Estamos diante de uma vida profundamente limitada”, comenta.

Apesar disso, o médico evita promessas. Cada caso exige avaliação individual, considerando exames, condições clínicas e resposta do organismo.

“Eu procuro ouvir primeiro. Depois examino, avalio os exames e explico as possibilidades. Em muitos casos, a decisão não deve ser imposta, mas construída com informação e responsabilidade”, explica.

Hérnia de disco não significa sempre cirurgia

O diagnóstico de hérnia de disco costuma gerar preocupação imediata, mas não implica, necessariamente, indicação cirúrgica. A conduta depende da repercussão sobre o nervo, da intensidade dos sintomas e da resposta aos tratamentos conservadores.

“Não é apenas o tamanho da hérnia que define o tratamento. O mais importante é entender o que ela está causando no paciente, se há compressão do nervo, perda de força ou limitação importante”, esclarece.

Cleiton também alerta para os riscos do repouso absoluto sem orientação. Em muitos casos, a ausência de movimento pode agravar o quadro. Fisioterapia, fortalecimento muscular e ajustes de hábitos costumam integrar o tratamento, sempre de forma individualizada.

Escoliose e atenção no crescimento

A escoliose também ocupa espaço relevante em sua atuação. A condição pode passar despercebida em crianças e adolescentes, especialmente na ausência de dor inicial. Sinais como assimetria nos ombros, desalinhamento da bacia e alterações posturais devem ser observados com atenção.

Quando identificada precocemente, há mais possibilidades de acompanhamento e controle. Em alguns casos, o uso de coletes pode ser indicado; em outros, a cirurgia pode ser considerada, dependendo da progressão da curva.

“Uma escoliose negligenciada pode gerar desequilíbrio e desgaste precoce. É como um pneu desalinhado: recebe carga de forma inadequada e se desgasta antes do tempo”, compara.

Tecnologia, envelhecimento e futuro

A evolução tecnológica tem transformado o tratamento das doenças da coluna. Técnicas minimamente invasivas, cirurgias por vídeo, neuromonitorização intraoperatória, navegação cirúrgica, realidade aumentada e robótica fazem parte do avanço da especialidade.

“A tecnologia pode agregar segurança e precisão, mas não substitui a indicação correta. O recurso mais moderno só faz sentido quando está a serviço de uma decisão bem feita”, avalia.

A inteligência artificial também surge como aliada potencial, especialmente na análise de exames e organização de dados clínicos. Ainda assim, ele ressalta que o desafio será integrar essas ferramentas sem perder a essência da relação médico-paciente.

O envelhecimento da população acrescenta um novo cenário. Com o aumento da expectativa de vida, doenças degenerativas da coluna tendem a se tornar mais frequentes, exigindo abordagens cada vez mais personalizadas e voltadas à qualidade de vida.

Escuta como ponto de partida

A trajetória de Cleiton reúne origem simples, formação em uma instituição de referência e experiência pessoal como paciente. Mas o eixo que sustenta sua atuação permanece o mesmo: a escuta como ponto de partida para qualquer decisão.

“A pessoa não deve aceitar a dor crônica como se fosse parte inevitável da vida. Em muitos casos, existe algo que pode ser feito para melhorar a qualidade de vida, mesmo que não seja uma cura definitiva. O importante é buscar avaliação, entender as possibilidades e não desistir de viver melhor”, conclui

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Site: https://www.cleitonnaves.com.br

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