Entre uma queixa física e aquilo que uma paciente ainda não consegue dizer existe um espaço que dificilmente aparece nos exames. É nesse intervalo, marcado pela escuta e pela construção da confiança, que Marcelle Lessa desenvolve sua atuação na ginecologia e na mastologia. Carioca, primeira médica da família e com uma trajetória que reúne universidade pública, medicina militar, obstetrícia e saúde das mamas, ela acredita que o cuidado feminino exige conhecimento técnico, mas também disponibilidade para compreender cada história.

A medicina não surgiu como um sonho de infância. Sem referências médicas dentro de casa, Marcelle descobriu essa vocação aos poucos. Ainda na adolescência, o interesse pela biologia se encontrou com uma característica que já fazia parte da sua personalidade: o desejo de cuidar das pessoas.

“Eu sempre gostei de cuidar das pessoas, mas não cresci dizendo que seria médica. Na adolescência, fui percebendo meu interesse pelo corpo humano e pela biologia. A medicina foi se tornando uma escolha possível até virar o meu caminho”, relembra.

Uma vocação construída no cuidado

Durante a graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, Marcelle passou por diferentes especialidades antes de encontrar seu lugar na ginecologia. Considerou áreas como neurologia, cirurgia, anestesia e terapia intensiva, mas sentia falta de acompanhar a trajetória dos pacientes além de um episódio específico.

Foi na ginecologia que encontrou o equilíbrio entre atendimento clínico, procedimentos, prevenção e vínculo de longo prazo. Após a graduação, realizou residência em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital Federal Cardoso Fontes e, posteriormente, concluiu um ano adicional de formação em Ultrassonografia em Ginecologia e Obstetrícia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), ampliando sua experiência em diagnóstico por imagem.

“Eu gostava da parte cirúrgica, mas também queria acompanhar a paciente. A ginecologia me permitiu unir raciocínio clínico, procedimento e vínculo. Não era apenas resolver um episódio, era seguir uma história”, conta.

A experiência que ampliou seu olhar

Outro capítulo importante de sua trajetória aconteceu no Exército Brasileiro. Influenciada pelo pai, militar, Marcelle ingressou na carreira e viveu experiências em diferentes regiões do país. Em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, atuou intensamente na obstetrícia; mais tarde, em Maceió, enfrentou desafios que ampliaram sua compreensão sobre diferentes realidades da medicina.

A experiência reforçou a importância de adaptar o cuidado ao contexto de cada paciente, reconhecendo que fatores sociais, culturais e emocionais também fazem parte da prática médica.

“Entrei no Exército com uma expectativa e encontrei cenários muito diferentes do que imaginava. Foram experiências exigentes, mas aprendi a lidar com equipes, com realidades diversas e com pacientes que chegam carregando muito mais do que uma queixa médica”, afirma.

Quando a confiança transforma a consulta

A mastologia surgiu como um reencontro com uma área que já havia despertado seu interesse durante a residência médica. O contato frequente com pacientes diagnosticadas com câncer de mama mostrou que alterações mamárias costumam ser acompanhadas por medos, dúvidas e inseguranças que vão muito além do diagnóstico.

“A mastologia voltou para mim como uma lembrança forte da residência. Quando me aproximei novamente, percebi que era uma área em que técnica, informação e humanidade precisam caminhar juntas”, explica.

Hoje, Marcelle atua na prevenção, avaliação de risco, acompanhamento da saúde das mamas e tratamento cirúrgico quando indicado. Também possui Certificado de Atuação em Mamografia pelo Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), voltado ao rastreamento e à investigação das doenças mamárias.

No consultório, a consulta começa pela escuta. Para ela, uma boa anamnese vai além de perguntas padronizadas. Muitas mulheres chegam com uma queixa aparentemente objetiva e, somente após estabelecerem confiança, conseguem falar sobre sexualidade, medo de doenças, alterações da menopausa, autoestima ou dificuldades nos relacionamentos.

“A medicina tem método, mas a paciente precisa conseguir contar a própria história. Quando ela fala com liberdade, aparecem informações que ajudam a entender melhor o quadro e conduzir o cuidado.”

Essa percepção também se reflete em sua formação em sexologia. Segundo a médica, muitas pacientes não conseguem abordar diretamente temas como dor durante a relação sexual, ressecamento vaginal ou diminuição da libido.

“A mulher, muitas vezes, quer falar sobre sexualidade, mas não começa por esse assunto. Ela precisa sentir que existe um espaço seguro para trazer aquilo que realmente incomoda.”

Prevenção, menopausa e autonomia feminina

Ao atuar simultaneamente na ginecologia e na mastologia, Marcelle observa um desafio comum: muitas mulheres ainda encontram dificuldades para olhar para o próprio corpo sem medo ou culpa.

Ela procura mostrar que prevenção não significa procurar doenças, mas desenvolver conhecimento sobre o próprio organismo e identificar mudanças que merecem avaliação médica.

Conhecer o próprio corpo faz parte do cuidado. Algumas mulheres ainda têm barreiras para se tocar, observar as mamas ou falar sobre sintomas íntimos. Muitas vezes, a consulta ajuda a desfazer medos construídos ao longo de anos“, explica.

A menopausa também ocupa espaço importante em sua prática clínica. Para Marcelle, esse período ainda é cercado por mitos que associam o fim da vida reprodutiva à perda da feminilidade ou da qualidade de vida.

“O fim da vida reprodutiva não é o fim da mulher. Parar de menstruar não significa deixar de ser feminina. Cada paciente precisa ser avaliado de forma individual, considerando sua história, seus riscos e o momento que está vivendo.”

Tecnologia e informação com responsabilidade

Aplicativos, plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial passaram a fazer parte da rotina de muitas pacientes antes mesmo da consulta. Marcelle considera positiva essa busca por informação, desde que ela não substitua a avaliação médica.

“Eu gosto quando a paciente pesquisa e quer entender. O problema é quando ela confia totalmente em uma resposta pronta e deixa de considerar a avaliação médica. Informação ajuda, mas precisa ser interpretada com responsabilidade.”

Mesmo com a dedicação crescente à mastologia, a obstetrícia continua presente em sua trajetória. Os plantões e o acompanhamento de partos permanecem como parte importante da sua atuação e reforçam o vínculo construído com diferentes fases da vida da mulher.

Agora também titulada em Mastologia, Marcelle segue ampliando seus caminhos profissionais e observa áreas que dialogam com sua experiência médica e institucional, como a auditoria médica. Em qualquer etapa, mantém a mesma convicção: a paciente precisa ser vista para além do diagnóstico.

Muito além do diagnóstico

Ao refletir sobre sua trajetória, Marcelle afirma que o maior objetivo do atendimento não é apenas tratar doenças, mas criar um ambiente em que cada mulher se sinta acolhida para falar sobre sua saúde sem medo ou julgamentos.

Sua mensagem final também segue esse caminho. Em vez de reforçar a ideia de uma mulher que precisa dar conta de tudo, ela prefere incentivar uma relação mais gentil consigo mesma.

“A mulher não precisa ser uma supermulher. Ela precisa ser ela mesma. Muitas vezes, o cuidado começa quando ela consegue pensar um pouco mais em si”, conclui.

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