Aos 91 anos, cantora mineira trilíngue formada em Direito cumpre agenda de shows e reverte a renda das apresentações em doações
Cantora nunca cobrou cachê por suas apresentações. Para ela, cantar jamais foi um negócio. Ainda assim, faz questão de remunerar os músicos, arcar com os custos de produção e oferecer jantar após os shows

Colocada sobre os móveis da sala ainda criança para cantar para os convidados da família, Maria Darci Resende (91) jamais imaginou que aquela obediência infantil se transformaria em uma vocação que atravessaria nove décadas. Hoje, aos 91 anos, a cantora mineira — conhecida artisticamente como Marie — mantém uma rotina ativa de ensaios, agenda apresentações e segue encantando plateias, sempre com um propósito que vai além da música: a solidariedade.
Nascida em março de 1934, em Perdizes, no interior de Minas Gerais, Marie cresceu em um ambiente onde o talento vocal se manifestou cedo. Ainda nos anos 1930, sua voz já chamava atenção, embora, como ela mesma recorda, cantar não fosse exatamente uma escolha naquele início. Com o tempo, porém, a música deixou de ser apenas entretenimento familiar e passou a ocupar um lugar central em sua vida.
Mesmo seguindo caminhos considerados “seguros”, Marie nunca abandonou o canto. Formou-se em Direito em uma universidade no Rio de Janeiro, construiu carreira como advogada, tornou-se mãe e cumpriu todas as obrigações da vida adulta sem jamais deixar a música sair da rotina. Para ela, cantar sempre foi algo maior do que profissão.
“A música é a maior manifestação divina. É a comunicação mais direta que sinto com o criador. Ela é espiritual, não posso ficar sem”, disse a cantora em entrevista ao MG1, afiliada da Globo no Triângulo Mineiro.

Palco, rigor e respeito ao público
Atualmente radicada em Uberaba, no Triângulo Mineiro, Marie apresentou recentemente o espetáculo Talento Não Tem Idade, acompanhada por outros sete músicos, no Centro Cultural Cecília Palmério. O repertório é escolhido com rigor e respeito ao público — valores que ela carrega como princípios inegociáveis.
“Não importa se é uma canção simples ou uma ópera. Eu estudo, ensaio, peço ajuda quando erro. Quem sai de casa para ver a Marie não vai ver qualquer coisa”, afirma, com a franqueza de quem conhece profundamente o ofício.
Influenciada por nomes como Édith Piaf (1915-1963), Marie canta também em francês e espanhol, habilidade adquirida ao longo das muitas viagens internacionais. Já se apresentou nos Estados Unidos, em Paris e na Suíça, onde vive uma de suas filhas. Ainda assim, um dos momentos mais marcantes de sua trajetória aconteceu em solo brasileiro: o dia em que cantou na histórica Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro.
“Ali me senti uma cantora”, recorda, emocionada, ao falar do espaço fundado em 1834, símbolo da história cultural do país.
Música como vocação — e gesto de generosidade
Apesar da longa trajetória e da dedicação profissional ao palco, Marie nunca cobrou cachê por suas apresentações. Para ela, cantar jamais foi um negócio. Ainda assim, faz questão de remunerar os músicos, arcar com os custos de produção e oferecer jantar após os shows.
“Eles trabalham muito e precisam ser valorizados. É uma festa”, resume.
Grande parte de seus concertos tem renda revertida para instituições beneficentes ou arrecadação de alimentos. Questionada se pensa em parar, responde sem hesitar: “Parar pra quê?”. Para Marie, enquanto houver voz, haverá música — seja no palco, em casa ou apenas no silêncio da escuta interior.
Assista a um vídeo de Marie cantando em 2024:
Uma vida atravessada pela história
A trajetória de Maria Darci Resende atravessa períodos marcantes do Brasil. Nos anos em que a presença feminina nos palcos era exceção, ela construiu um caminho próprio, guiada pela liberdade e pela fidelidade à própria essência. Viveu a boemia da Lapa em seu auge, enfrentou os anos duros da ditadura militar e transformou dificuldades em leveza.
O amor pelo bairro carioca virou canção, assim como paisagens da Suíça observadas da janela da casa da filha. Durante a pandemia, chegou a ensaiar cerca de 200 músicas em apenas três dias — prova de que o tempo não diminuiu seu vínculo com a arte.
Passou ainda 14 anos no Coral Vera Cruz e foi regida pelo maestro Isaac Karabichewski (91), experiência que marcou definitivamente sua relação com a música. Gravou dois álbuns ao longo da vida e considera isso suficiente. A advocacia, essa sim, ficou no passado.
Legado vivo
Para o músico Fausto Reis Rocha Oliveira, parceiro de palco e amigo, Marie é inspiração pura. “Cantei em lugares que jamais imaginaria se não fosse com ela”, afirma.
Bolero, samba, chorinho, MPB, ópera ou clássicos internacionais: se a música é boa, Marie canta. Minas Gerais, terra que já revelou tantos ícones da música brasileira, também é o berço dessa artista que desafia o tempo com voz, presença e generosidade.
Para quem acredita que existe idade certa para sonhar, ela deixa o recado simples e definitivo:
“A vida termina quando termina.”