Ícone da Tropicália, ex-Ministro da Cultura e um dos maiores nomes da música popular brasileira, Gilberto Gil (84) sempre manteve uma forte ligação com as causas sociais e com a terra. No entanto, um capítulo marcante e pouco conhecido de sua trajetória pessoal envolve a tentativa de transformar um de seus refúgios rurais em um projeto de reforma agrária. O gesto generoso do artista, feito ainda nos anos 2000, acabou esbarrando na burocracia estatal e gerando um longo impasse no interior da Bahia.
De acordo com informações apuradas e publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo, a propriedade rural repassada pelo músico ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) permanecia sem abrigar nenhuma família assentada cerca de dez anos após a assinatura do acordo de doação, frustrando os planos iniciais do projeto.
O refúgio no interior baiano e a estrutura do imóvel
A propriedade em questão é a Fazenda das Amoreiras, situada no município de Corumbá de Zaú, na região do recôncavo e interior baiano. Adquirida pelo artista nos anos 1980 para servir como refúgio de descanso para a família e espaço para reuniões de amigos e músicos, a terra possui um alto valor afetivo e histórico para a trajetória do cantor.
Com uma extensão de mais de 50 hectares, a fazenda contava com uma estrutura receptiva completa para a época. O espaço abrigava uma casa-sede de estilo colonial com amplas varandas, áreas destinadas ao cultivo de subsistência, açude interno, além de trechos cobertos por vegetação nativa da região. Toda essa infraestrutura foi entregue oficialmente pelo artista ao governo federal para que o local fosse destinado ao assentamento de famílias de trabalhadores rurais.
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A burocracia e a década de espera no campo
A doação formal do imóvel ocorreu no ano de 2006, quando Gilberto Gil optou por destinar a terra para fins de reforma agrária através do Incra, em um movimento que buscava beneficiar famílias ligadas aos movimentos sociais do campo, como o MST. Contudo, o rito burocrático e a lentidão nos processos administrativos do órgão governamental fizeram com que os anos se passassem sem que o projeto saísse do papel.
Em 2016, uma década inteira após a entrega das terras pelo cantor, o cenário no local continuava inalterado: a Fazenda das Amoreiras seguia sem nenhuma família assentada e com a estrutura física sofrendo com a ação do tempo. O contraste entre a intenção social de Gil e o desfecho prático do terreno evidencia os entraves históricos na gestão de terras doadas para fins públicos no país, mostrando que nem mesmo o empenho de uma das maiores estrelas do Brasil conseguiu acelerar a máquina pública.
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