O cantor e compositor Tom Zé, um dos nomes do movimento tropicalista, já abriu as portas de sua residência no bairro de Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo, durante uma participação no programa Pode Entrar, do canal Casa GNT. Na ocasião, o músico revelou uma particularidade de sua rotina: utiliza dois apartamentos no mesmo edifício, um dedicado à criação musical e outro à vida pessoal, compartilhado com sua esposa, Neusa Martins.

Morador do bairro desde a década de 1970, o artista organizou os imóveis de acordo com suas necessidades. Enquanto o apartamento do andar inferior funciona como um espaço de experimentação sonora e armazenamento de objetos ligados à carreira, o outro, localizado cinco andares acima, concentra livros, discos e ambientes destinados ao cotidiano do casal.

No apartamento utilizado como estúdio, Tom Zé guarda instrumentos que desenvolveu para explorar diferentes possibilidades musicais. Entre eles está o Buzinório, construído com buzinas de automóveis e utilizado para reproduzir sons associados ao trânsito urbano. Outro objeto apresentado é o Enceroscópio, criado a partir de enceradeiras equipadas com microfones, que permite explorar sonoridades pouco convencionais.

O espaço também funciona como um arquivo da trajetória do compositor. As portas dos armários são cobertas por recortes de jornais reunidos ao longo de décadas, enquanto fotografias históricas espalhadas pelas paredes registram momentos de sua carreira.

Refúgio de Tom Zé tem biblioteca e coleção de discos

Cinco andares acima do estúdio fica o apartamento residencial, onde Tom Zé vive com Neusa Martins. O imóvel abriga uma biblioteca que ocupa boa parte das paredes, com estantes preenchidas por livros de poesia, história, arte e literatura.

Entre os títulos apresentados durante a visita estão Kama Sutra, Ideograma: Lógica, Poesia, Linguagem, de Haroldo de Campos, e O Último Tropicalista, biografia do músico escrita por Pietro Scaramuzzo.

O escritório também reúne uma coleção de discos de vinil, organizada e mantida, em grande parte, por Neusa. Os exemplares dividem espaço com os livros e outros materiais ligados ao universo artístico do casal.

No quarto, os dois mantêm um hábito relacionado à literatura. Durante a visita, foi revelado que Neusa costuma ler poesias para o marido antes de dormirem, transformando a leitura em parte da rotina noturna.

Outro detalhe da relação do músico com o lugar onde vive está fora dos apartamentos. Tom Zé também dedica parte de seu tempo aos cuidados com o jardim do condomínio, atividade que associa à sua ligação com a terra e às origens nordestinas.

A relação com o bairro de Perdizes também foi destacada pelo compositor, que se descreveu como parte dos “móveis e utensílios” da região, em referência à convivência construída ao longo de décadas com moradores e comerciantes locais.

Tom Zé
Tom Zé – Foto: Reprodução/YouTube
Tom Zé
Tom Zé – Foto: Reprodução/YouTube

Carreira de Tom Zé

Nascido em Irará, na Bahia, em 11 de outubro de 1936, Tom Zé, nome artístico de Antônio José Santana Martins, construiu uma trajetória marcada pela experimentação musical e pela participação no movimento tropicalista. O cantor estudou na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, onde teve contato com diferentes correntes da música erudita e conheceu artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia.

Em 1968, participou da gravação do álbum coletivo Tropicália ou Panis et Circencis, considerado um marco do Tropicalismo. No mesmo ano, conquistou o primeiro lugar no IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, com a canção São, São Paulo Meu Amor, e lançou seu primeiro disco, Grande Liquidação.

Ao longo da década de 1970, lançou trabalhos como Todos os Olhos (1973) e Estudando o Samba (1976), nos quais aprofundou suas experiências com ritmos, estruturas musicais e instrumentos não convencionais. Após um período de menor projeção comercial, sua obra ganhou reconhecimento internacional no fim dos anos 1980, quando David Byrne, ex-integrante do Talking Heads, conheceu suas gravações e contribuiu para a divulgação de sua música nos Estados Unidos.

Entre seus trabalhos posteriores está Com Defeito de Fabricação (1998), álbum que recebeu destaque da crítica internacional. Em 2022, o músico tomou posse na Academia Paulista de Letras, ocupando a cadeira 33.