Como a população do Qatar se relaciona com os animais? Vendas chegam a US$ 250 mil
Entre o cotidiano com gatos de rua e leilões milionários, o valor de um animal no Qatar pode ultrapassar cifras impensáveis para a maioria dos visitantes

Quem visita o Qatar logo percebe que o país guarda costumes que se revelam não apenas nos edifícios, mas também nos hábitos e códigos do cotidiano. Um deles está na forma como a sociedade catariana se relaciona com os animais, um aspecto do dia a dia que recentemente voltou ao centro das atenções internacionais após a repercussão do caso do cachorro Orelha, no Brasil.
No Qatar, assim como em outros países islâmicos, os animais são vistos como divinos e são tratados com respeito. No entanto, seus papéis na vida cotidiana são diferentes daqueles aos quais muitos visitantes estão acostumados. A ideia de animais de estimação dentro de casa, por exemplo, não ocupa um lugar central na cultura local.
Entre os animais mais presentes no Qatar, os gatos ocupam um lugar de destaque. Eles são a grande maioria entre os pets no país e fazem parte da paisagem urbana de forma quase simbólica. A forte presença dos gatos está ligada tanto a costumes locais quanto a referências do Islã, que associa esses animais à limpeza e à convivência harmoniosa com os humanos.
Não é raro ver moradores e comerciantes oferecendo água e alimento aos gatos, especialmente em áreas comerciais e residenciais. Para muitos visitantes, esse cuidado cotidiano se transforma em uma das imagens mais marcantes da experiência no país.
Comercialização
Paralelamente a essa convivência espontânea, existe no Qatar um mercado pet estruturado, voltado principalmente às camadas mais abastadas da sociedade. Segundo anúncios públicos em plataformas locais de venda de animais, filhotes de raças como British Shorthair, Scottish Fold ou Ragdoll costumam ser comercializados por valores que variam, em média, entre QAR 1.600 e QAR 2.000 (cerca de US$ 440 a US$ 550), dependendo da linhagem e do pedigree.
Além dos felinos, aves e outros animais de prestígio também fazem parte desse mercado. Os falcões, símbolos tradicionais de status e profundamente ligados à cultura local por meio da prática da falcoaria, são negociados em faixas que começam em torno de QAR 14.500 (US$ 4.000). Dados culturais e registros de leilões internacionais indicam que exemplares raros podem ultrapassar QAR 910.000 (US$ 250.000) em eventos exclusivos, especialmente quando possuem linhagens altamente valorizadas.

Tradição beduína
Outro exemplo são os cavalos de raça, criados com extremo cuidado e ligados à tradição beduína – o modo de vida ancestral dos povos do deserto da Península Arábica. Informações de criadores especializados e do mercado equestre do Oriente Médio indicam que cavalos árabes de linhagens reconhecidas podem ser comercializados por valores que variam de QAR 72.800 (US$ 20.000) a mais de QAR 364.000 (US$ 100.000), chegando a cifras ainda mais elevadas no caso de exemplares premiados ou com genealogia rara.

Processo de transformação
Essa diversidade de valores ajuda a compreender como, no Qatar, a relação com os animais atravessa também a história, a cultura e as dinâmicas contemporâneas de prestígio e identidade. Com a abertura ao turismo internacional e a crescente presença de estrangeiros, o Qatar também vive um processo de transformação. Iniciativas de promoção da proteção animal, criação de abrigos e avanços na legislação indicam um país em adaptação, buscando equilibrar identidade cultural, expectativas globais e novos olhares sobre o bem-estar animal.
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