Brasil e Qatar: como a relação diplomática fez comércio saltar de 37 milhões para US$ 2 bilhões
De encontros diplomáticos nos anos 1970 a investimentos estratégicos, parceria entre os dois países ganhou força com visitas presidenciais e acordos econômicos

O Brasil e o Qatar mantêm uma relação que vai muito além da diplomacia formal. Iniciada oficialmente em 1974, apenas três anos após a independência do país árabe, a parceria bilateral evoluiu ao longo das décadas e se consolidou como um canal estratégico de negócios, investimentos e cooperação econômica entre a maior economia da América do Sul e uma das nações mais ricas do mundo.
As relações entre os dois países começaram de forma modesta, com representações indiretas: enquanto o Qatar era representado por sua missão permanente junto à ONU, em Nova York, o Brasil mantinha contatos a partir de sua embaixada em Abu Dhabi. O cenário mudou nos anos 1990, quando o Qatar abriu sua primeira embaixada em Brasília (DF), em 1997.
Após um breve período de interrupção diplomática, motivado por restrições orçamentárias brasileiras, a relação entrou em nova fase em 2005, com a abertura definitiva da embaixada do Brasil em Doha, anunciada pelo então chanceler Celso Amorim (83). Dois anos depois, em 2007, o Qatar restabeleceu sua embaixada no Brasil, sinalizando interesse claro em aprofundar os laços.

Visitas presidenciais e salto nos negócios
O grande ponto de virada aconteceu em janeiro de 2010, quando o então emir do Qatar, Hamad bin Khalifa Al Thani (74), realizou a primeira visita oficial de um chefe de Estado catariano ao Brasil. Recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (80) no Palácio do Itamaraty, o encontro resultou na assinatura de acordos econômicos, comerciais e de serviços aéreos, além de ampliar o diálogo político entre os dois países.
Na ocasião, Lula destacou o potencial da parceria entre “duas economias dinâmicas e complementares” e ressaltou as oportunidades para empresas brasileiras em setores estratégicos do Qatar, especialmente infraestrutura e energia. Poucos meses depois, em maio de 2010, o presidente brasileiro retribuiu a visita e esteve em Doha, acompanhado por cerca de 40 empresários brasileiros, reforçando o viés econômico da relação.

Comércio em expansão e investimentos cruzados
Os resultados apareceram rapidamente. Entre 2003 e 2010, o comércio bilateral cresceu cerca de 1.300%, saltando de US$ 37 milhões para mais de US$ 500 milhões. O Qatar, por sua vez, passou a demonstrar interesse crescente em investir no Brasil, sobretudo por meio de seu fundo soberano, um dos mais robustos do mundo.
Durante esse período, a Qatar Holding firmou acordos com instituições brasileiras como o BNDES, a Previ e a mineradora Vale, além de participar de projetos conjuntos em diferentes setores. A criação de conselhos empresariais bilaterais e a ampliação das conexões aéreas — incluindo o voo direto entre Doha e São Paulo — ajudaram a intensificar ainda mais o fluxo de negócios.
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Relação estratégica atravessou governos
O diálogo de alto nível seguiu nos anos seguintes. Em 2011, o então ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota (71), visitou Doha para dar continuidade à agenda bilateral, reforçando o potencial de diversificação da relação Brasil-Qatar.
Já em novembro de 2021, o ex-presidente Jair Bolsonaro (70) incluiu o Qatar em sua agenda no Oriente Médio, reunindo-se com o emir Tamim bin Hamad Al Thani (45). A visita teve como foco o fortalecimento das relações com países do Golfo, conhecidos por seus fundos soberanos bilionários e forte capacidade de investimento internacional.

Uma parceria com olhar para o futuro
Com uma diplomacia ativa, forte poder financeiro e interesse em mercados emergentes, o Qatar se consolidou como um parceiro estratégico para o Brasil. Para os brasileiros, o país árabe representa não apenas um mercado consumidor sofisticado, mas também uma fonte relevante de capital e investimentos de longo prazo.
Cinco décadas após o início das relações diplomáticas, Brasil e Qatar seguem ampliando uma parceria que nasceu política, cresceu institucionalmente e hoje se firma como uma ponte sólida de negócios entre a América do Sul e o Golfo Pérsico. A inauguração do primeiro consulado do Qatar na América do Sul, em São Paulo, marca um movimento estratégico para fortalecer relações comerciais com o Brasil e destravar investimentos apoiados por fundos soberanos de cerca de US$ 525 bilhões.
Segundo o cônsul Almuhannad Al-Hammadi, o interesse catariano não se limita a um único setor e inclui áreas como energia, agronegócio, finanças, turismo, mineração e hotelaria de alto padrão. Apesar do apetite por novos negócios, a ausência de um acordo para evitar a bitributação ainda é um entrave relevante. Mesmo assim, o Qatar já soma US$ 2 bilhões investidos no setor energético brasileiro e mantém o país no radar de seu principal fundo soberano para projetos futuros.

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