Outros famosos já travaram batalha contra o câncer que levou Preta Gil em 2025

Doença que vitimou a cantora Preta Gil também atingiu nomes históricos da música, do esporte e da TV; médico explica diferenças

Outros famosos já travaram batalha contra o câncer que levou Preta Gil em 2025 - Foto: Instagram

A morte de Preta Gil, em 2025, após uma longa e corajosa luta contra o câncer colorretal, reacendeu o alerta sobre uma doença silenciosa, comum no Brasil e que atinge indiscriminadamente homens e mulheres, famosos ou não. Ao longo dos últimos anos, diversos nomes conhecidos tornaram público o diagnóstico, ajudando a jogar luz sobre sintomas, tratamentos e a importância do rastreamento precoce. Entre eles estão Pelé, Roberto Dinamite, Simony, Emílio Surita e o ator Luis Gustavo, que morreu em 2021 após complicações da doença.

Câncer colorretal entre famosos brasileiros

O câncer colorretal engloba tumores que se desenvolvem no cólon ou no reto, regiões distintas do intestino grosso. Apesar de muitas vezes serem citados como uma única doença, há diferenças importantes que influenciam diretamente o tratamento.

Pelé, por exemplo, enfrentou complicações intestinais graves nos últimos anos de vida. Roberto Dinamite também teve um quadro avançado, enquanto Simony, diagnosticada precocemente, conseguiu responder melhor ao tratamento e hoje segue em acompanhamento. Já Preta Gil tornou pública cada etapa da sua luta, incluindo cirurgias complexas e tratamentos agressivos.

Câncer de cólon x câncer de reto

Segundo o oncologista Dr. Ramon Andrade de Mello, existem diferenças clínicas relevantes entre os dois tipos, especialmente nos estágios iniciais da doença. “Embora muitas vezes as pessoas se refiram como câncer colorretal, de fato, existem sim diferenças clínicas e terapêuticas entre as duas patologias, embora também exista muita coincidência, principalmente na doença metastática”, explicou o médico. “Mas, na doença inicial, o câncer de cólon normalmente é tratado com cirurgia e quimioterapia. Muitas vezes o paciente também tem que fazer cirurgia de urgência, o que muda um pouco a conduta depois na adjuvância”, disse.

No câncer de reto, a sequência costuma ser diferente. “Na doença inicial, existem sim abordagens diferentes de tratamento, que podem começar com quimioterapia, radioterapia seguida de cirurgia, e depois muitas vezes você pode fazer a quimioterapia adjuvante”, afirmou. “Ou muitas vezes no câncer de reto também você pode iniciar o tratamento com quimio, radioterapia associada a quimio e depois fazer a estratégia do watchful waiting”, completou.

Quando a cirurgia não basta

Mesmo após cirurgias consideradas curativas, como em muitos casos divulgados por famosos, a quimioterapia pode ser necessária para reduzir o risco de retorno da doença.

“Os pacientes que passam por cirurgia, muitas vezes podem precisar de tratamentos adjuvantes, ou seja, complementares. Esses tratamentos a base de quimioterapia têm a intenção de reduzir o risco de recidiva da doença”, explicou Dr. Ramon Andrade de Mello.

Segundo ele, fatores como extensão do tumor e comprometimento dos linfonodos são decisivos. “A presença de linfonodos comprometidos, perfuração intestinal e cirurgia de urgência são fatores que influenciam diretamente”, disse.

O impacto na qualidade de vida existe, mas pode ser manejado. “Essas quimioterapias adjuvantes podem ter toxicidades que comprometem a qualidade de vida, como náusea, vômitos, diarreia, aftas e a síndrome mão-pé”, relatou. “Por isso, o teste genético DPD ajuda a ajustar a dose da fluoropirimidina e reduzir riscos”, concluiu.

Chances de cura

O prognóstico do câncer colorretal varia de forma significativa conforme o momento do diagnóstico — algo que marcou a diferença entre histórias como a de Simony e a de Preta Gil.

“A sobrevida nos diagnósticos iniciais é superiormente maior do que nos estágios metastáticos”, afirmou o oncologista. “No diagnóstico inicial, temos sobrevidas superiores a 80% e, na doença metastática, sobrevidas que podem variar de 5% a 15%, dependendo dos estudos”, explicou.

Ele reforça que cada caso é único. “É muito complicado generalizar números. Vai depender dos tratamentos, da tolerância do paciente e de vários fatores individuais”, pontuou. “O mais importante é discutir o prognóstico de forma individualizada com o oncologista”, orientou.

Rastreamento salva vidas

Para Dr. Ramon, a visibilidade de pessoas públicas pode ser decisiva para mudar o cenário da doença no país. “Existem protocolos nacionais e internacionais bem estabelecidos. O rastreio começa com o teste de sangue oculto nas fezes a partir dos 45 anos”, explicou. “Se o teste for positivo, é indicada a colonoscopia. Após os 50 anos, é fundamental procurar um médico para discutir a realização do exame”, disse.

Além disso, o estilo de vida pesa. “A atividade física é protetora contra o câncer de cólon, enquanto a obesidade é um fator de risco importante”, afirmou. “Combater a obesidade é fundamental para tentar prevenir essa doença”, concluiu.

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Dr. Ramon Andrade de Mello (CRM-SP: 181245 RQE: 67356) Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Pós-Doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra), pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), pesquisador sênior do CNPQ (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico), Brasil, vice-líder do programa de Mestrado em Oncologia da Universidade de Buckingham (Inglaterra), Doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal). Tem MBA em gestão de clínicas, hospitais e indústrias da saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), São Paulo. É pesquisador e professor do Doutorado da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), de São Paulo. Membro do Conselho Consultivo da European School of Oncology (ESO). O oncologista tem mais de 122 artigos científicos publicados, é editor de 4 livros de Oncologia, entre eles o Medical Oncology Compendium, Elsevier, de 2024. É membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e do Centro de Diagnóstico da Unimed, em Bauru, SP. Instagram: @dr.ramondemello