O que está por trás do desabafo de Maíra Cardi sobre vida sexual após o parto?

Especialista explica mudanças físicas e emocionais que podem afetar a intimidade no puerpério após influenciadora relatar dificuldades ao retomar relações após o nascimento da filha

Desabafo de Maíra Cardi - Foto: Repodução/Redes sociais

O relato de Maíra Cardi sobre dificuldades ao retomar a vida sexual após o nascimento da filha chamou atenção nas redes sociais e abriu espaço para um debate que ainda costuma ser pouco discutido. Em dezembro de 2025, a influenciadora contou que sentiu dor e estranhamento durante a primeira relação após o período de resguardo, fase de recuperação do corpo depois do parto.

Segundo ela, mesmo após cumprir o tempo recomendado pelos médicos, a experiência foi diferente do que imaginava. A influenciadora relatou que o corpo parece reagir de outra forma nesse momento, algo que, para muitas mulheres, pode causar surpresa e insegurança.

O que dizem os profissionais?

Para entender por que isso acontece, a sexóloga Bárbara Bastos, em conversa com a CARAS Brasil, explica que a sensação de estranhamento não está ligada apenas ao físico. “Na verdade, são os dois aspectos juntos, não tem como separar. Não é só físico, nem só emocional. O corpo da mulher passa por uma transformação muito profunda”, afirma.

A especialista explica que o organismo leva tempo para se reorganizar depois da gravidez. “Fisicamente, ele realmente está completamente diferente. E é importante falar sobre isso, porque muitas pessoas ainda acreditam que, assim que o bebê nasce, a barriga simplesmente volta ao normal. E não é assim”, diz.

E a recuperação?

Segundo ela, o processo de recuperação acontece de forma gradual. “Depois do parto, a mulher ainda fica com a barriga por um tempo. O útero precisa de tempo para voltar ao lugar, o corpo precisa se reorganizar, tudo vai acontecendo aos poucos”, explica.

Além das mudanças físicas, o puerpério também envolve um forte impacto emocional. “Os hormônios ainda estão todos desregulados, o corpo entra em uma nova etapa, que é a amamentação, o cuidado constante, a sobrevivência e dependência total do bebê. É uma fase intensa, cheia de mudanças e extremamente desafiadora para muitas mulheres”, afirma.

A sexóloga destaca que muitas frustrações acontecem justamente porque essas transformações ainda são pouco discutidas abertamente. “O silêncio em torno de temas desafiadores atrapalha muito. Ele gera mais frustrações, inseguranças e dúvidas, sem nenhuma dúvida”, diz.

A importância de informações concretas

Para ela, quando as mulheres não têm acesso a essas informações antes de viver a experiência, é comum surgir um sentimento de isolamento. “Quando algo é novo para a pessoa e ela nunca ouviu ninguém falar sobre aquilo antes, surge uma sensação muito solitária, quase como se ela fosse um ponto fora da curva”, explica.

Bárbara afirma que, nos últimos anos, as redes sociais passaram a ajudar a ampliar esse debate. “Eu vejo que, já há algum tempo, muitas mães têm começado a compartilhar mais suas vulnerabilidades. Elas falam dos medos, das inseguranças, das dificuldades reais desse processo”, diz.

Ainda assim, ela alerta que o puerpério pode impactar diretamente a dinâmica do casal. “Existe uma avalanche hormonal, mudanças físicas profundas, transformações emocionais e uma mente completamente voltada para a sobrevivência daquele bebê”, afirma.

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De forma gradual

Nesse contexto, segundo a especialista, é natural que o desejo sexual demore a voltar. “Depois de noites mal dormidas, de um corpo em recuperação e de uma mente exausta, é absolutamente compreensível que o desejo não esteja presente”, explica.

Outro ponto importante é a pressão que muitas mulheres sentem para retomar a vida sexual rapidamente. “Existem, sim, homens que acabam forçando a barra, mesmo que de forma sutil, e isso é extremamente prejudicial tanto para a mulher quanto para o relacionamento”, afirma.

De acordo com a sexóloga, o desejo não pode surgir a partir de cobrança ou medo. “O desejo e o sexo prazeroso não nascem da pressão, do medo ou da obrigação. Eles só acontecem quando ambos estão disponíveis, presentes e conectados naquele momento”, diz.

Para ela, o caminho mais saudável durante o puerpério é o diálogo entre o casal e o respeito ao tempo do corpo. “Conversar abertamente é essencial”, conclui.

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Bárbara Bastos, sexóloga clínica e educacional pela FASEX; especialista em Terapia Cognitiva Sexual; pós-graduanda em Sexualidade Humana pelo Child Behavior Institute of Miami (Estados Unidos), co-fundadora da Désir Atelier e designer de produto pela PUC-Rio.