Quando veio à tona a informação de que Lady Gaga gravou o filme Nasce Uma Estrela enquanto fazia uso de lítio, medicamento estabilizador de humor amplamente utilizado no tratamento de transtornos psiquiátricos, a revelação gerou choque, curiosidade e uma onda de debates nas redes sociais. O detalhe que muitos ignoraram, no entanto, é que a artista atravessava um colapso mental severo naquele período — algo que ela mesma descreveu como um momento em que mal conseguia funcionar emocionalmente.
Segundo relatos divulgados pelo Observatório do Cinema, Lady Gaga chegou a enfrentar episódios de desorganização psíquica importantes durante as filmagens, o que posteriormente a levou a interromper compromissos profissionais e buscar tratamento intensivo. Ainda assim, foi justamente nesse contexto que ela entregou uma das performances mais elogiadas de sua carreira, indicada ao Oscar e aclamada pela crítica.
O colapso mental por trás de uma atuação premiada
Lançado em 2018, Nasce Uma Estrela marcou um divisor de águas na trajetória de Lady Gaga como atriz. O que o público só descobriria depois é que, nos bastidores, a cantora vivia uma fase de profundo desequilíbrio emocional, fazendo uso de medicação psiquiátrica — incluindo o lítio — para estabilizar o humor.
Em entrevistas posteriores, Gaga relatou que precisou interromper sua rotina artística após o filme, por não conseguir mais sustentar emocionalmente a pressão. O caso escancarou uma realidade ainda cercada de tabu: tratar a saúde mental não significa incapacidade profissional.
Medicamentos psiquiátricos bloqueiam emoções?
Para esclarecer essa relação entre tratamento e expressão artística, a Caras Brasil conversou com o psiquiatra Dr. João Borzino, referência em saúde mental integrativa e cuidado humanizado da psique.
Segundo o especialista, existe uma falsa crença de que o sofrimento psíquico desregulado seria fonte de criatividade. “Nossa saúde mental está profundamente conectada à nossa capacidade criativa, empática e expressiva — exatamente os pilares da atuação artística”, explicou. “Medicamentos como o lítio não ‘anulam’ emoções, mas criam estabilidade emocional. No caso de artistas como Gaga, essa regulação pode ser libertadora. É um equívoco pensar que a arte depende do sofrimento psíquico desregulado. A verdadeira expressão floresce quando a mente está integrada”, afirmou o médico.
Trabalhar durante o tratamento é possível?
De acordo com Dr. Borzino, continuar trabalhando enquanto se cuida da saúde mental não é apenas comum, como pode fazer parte do processo terapêutico, desde que haja acompanhamento médico adequado.
“Sim, é comum — e, muitas vezes, terapêutico. Artistas não deixam de viver ou criar por estarem em tratamento”, disse. “Mas é fundamental o acompanhamento constante, ajustes nas dosagens e um ambiente de trabalho empático. Um set saudável, com pausas e escuta, é essencial. O cuidado não é fraqueza — é força”, ressaltou.
No caso de Lady Gaga, o apoio médico e a interrupção posterior da agenda foram decisivos para evitar um agravamento ainda maior do quadro.
E os efeitos colaterais do lítio?
O lítio, embora extremamente eficaz, pode causar efeitos colaterais, especialmente no início do uso ou em ajustes de dose. Ainda assim, isso não inviabiliza a atuação profissional.
“Podem interferir, sim — sonolência, alterações no apetite, embotamento emocional leve”, explicou o psiquiatra. “Mas tudo isso pode ser ajustado. O segredo está no equilíbrio entre as demandas externas e o respeito aos limites internos. Quando bem conduzida, a medicação ajuda a pessoa a estar mais presente — e essa presença é a alma da boa atuação”, afirmou Borzino.
Quando uma artista expõe o tratamento, o impacto é coletivo
Para o especialista, a decisão de Lady Gaga de falar abertamente sobre o uso de medicação e o colapso mental vivido durante Nasce Uma Estrela tem um efeito que vai muito além da carreira artística.
“É um ato de coragem. Quando alguém como Lady Gaga fala sobre isso, humaniza o tema”, disse. “Mostra que mesmo os ídolos enfrentam desafios emocionais e que buscar ajuda é um gesto de força. Nós, profissionais, vemos isso como uma oportunidade de quebrar estigmas e mostrar que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo”, concluiu.