Influencer se apaixona por IA e especialista alerta: ‘Tecnologia não substitui afeto real’
Em entrevista para CARAS Brasil, psiquiatra explica por que vínculos com IA podem aprofundar solidão emocional e quando é hora de buscar ajuda profissional

A influenciadora digital Kendra Hilty (36) viralizou no TikTok ao revelar que se apaixonou por um terapeuta de inteligência artificial chamado Henry. A história chamou atenção porque aconteceu logo após ela interromper a terapia com um psiquiatra humano.
O detalhe que mais intrigou os seguidores foi a resposta do chatbot. Segundo Kendra, o “terapeuta virtual” chegou a sugerir que seu antigo médico também teria se apaixonado por ela, trazendo à tona o conceito de contratransferência — quando o profissional projeta sentimentos no paciente.
Mas até que ponto é saudável criar uma relação afetiva com uma IA? Para esclarecer os riscos, a CARAS Brasil conversou com a psiquiatra Maria Fernanda Caliani.
O risco de se apegar à inteligência artificial
Kendra revelou que desenvolveu sentimentos pelo ex-psiquiatra e, em seguida, se apegou ao chatbot. O caso levanta uma discussão urgente: uma IA pode oferecer suporte psicológico de forma segura ou apenas confundir ainda mais o paciente?
“A criação de vínculos emocionais na terapia é absolutamente natural e esperada. Isso se chama transferência: o paciente projeta sentimentos no terapeuta como parte do processo de cura. Mas isso precisa ser manejado com técnica, escuta e ética”, explica Caliani.
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“Quando essa transferência acontece com uma IA, não há escuta clínica. Há apenas uma simulação de presença, sem a capacidade de conter, interpretar ou devolver esse afeto de forma terapêutica. O risco? O paciente pode confundir acolhimento com apego, e isso pode aprofundar sua solidão emocional, especialmente se houver histórico de abandono, traumas afetivos ou transtornos de vínculo”, completa.
Terapia é território humano
Segundo a especialista, é justamente por isso que a formação de psiquiatras e psicoterapeutas é tão exigente.
“Não é à toa que a formação de um psiquiatra ou psicoterapeuta envolve tanto estudo sobre relação terapêutica: esse espaço não é só conversa, é território delicado de cura e exige responsabilidade humana”, ressalta Caliani.
Quando procurar ajuda de um profissional humano?
Com a popularização das inteligências artificiais no dia a dia, muitas pessoas podem se perguntar: como diferenciar o uso saudável da tecnologia do momento em que é necessário buscar ajuda profissional?
“Esse limite aparece quando a dor emocional começa a interferir no funcionamento da vida: no sono, no apetite, nos relacionamentos, no trabalho, na autoestima. Se a pessoa sente que está andando em círculos, que está se sentindo cada vez mais só, ou que precisa ‘conversar com uma IA’ com frequência para aguentar o dia é hora de buscar ajuda humana”, afirma a psiquiatra.
“A IA pode ouvir. Mas não sente”
Para a médica, a diferença entre tecnologia e atendimento humano é clara: “A IA pode ouvir. Mas não sente. Não interpreta contextos. Não percebe mudanças no olhar, na entonação, nas entrelinhas. E tudo isso, para nós psiquiatras, fala mais alto do que as palavras”, diz Caliani.
E conclui: “Tecnologia é bem-vinda, mas cuidado emocional precisa de afeto real, vínculo verdadeiro, e presença clínica. E isso, nenhuma máquina vai substituir.”
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