Quando a cantora Anitta (32) recebeu a coroa de rainha de bateria da Acadêmicos do Grande Rio no último domingo (20), o gesto extrapolou a simples celebração do samba.

A responsável por colocar o adorno na cabeça da popstar carioca foi Eloína de Souza (80), popularmente conhecida como Eloína dos Leopardos.

Essa artista multifacetada — atriz, coreógrafa, produtora e artista transformista — personifica a própria gênese do posto que hoje movimenta holofotes e multidões na Marquês de Sapucaí.

Muito antes de a função de rainha de bateria se tornar um dos cargos mais cobiçados da cultura pop brasileira, foi Eloína quem inaugurou essa tradição.

Em 1976, descoberta pelo gênio Joãosinho Trinta (1933-2011) após se destacar em um concurso de baile de Carnaval no ano anterior, ela fez sua estreia histórica à frente dos ritmistas da Beija-Flor de Nilópolis.

No desfile do célebre enredo Sonhar com Rei Dá Leão, a presença magnética da artista travesti causou grande impacto no público e na imprensa.

De acordo com o portal Metrópoles, Eloína permaneceu na agremiação entre 1976 e 1978, período em que a Beija-Flor conquistou o primeiro tricampeonato de sua história, consagrando-a oficialmente como a primeira rainha de bateria do Carnaval carioca e a primeira mulher transgênero a ostentar esse título.

Contudo, o magnetismo de Eloína de Souza não se limita às passarelas do samba. Nascida no Rio de Janeiro em 1945, ela iniciou sua carreira no teatro como camareira de vedetes até conquistar seu próprio lugar nos palcos centrais da cidade.

Durante o regime da ditadura militar, em 1969, deixou o país rumo a Paris, dividindo sua vida e trabalho entre o exterior e o Brasil por anos.

Na década de 1980, já de volta ao país, Eloína cunhou um dos capítulos mais emblemáticos do entretenimento noturno ao conceber o espetáculo Noite dos Leopardos.

A atração, marcada por performances ousadas de sensualidade e nudez masculina, transformou-se em um estrondoso fenômeno de público e bilheteria na noite carioca, permanecendo em cartaz por cerca de dez anos e imortalizando a alcunha com a qual é reconhecida até hoje.

Décadas mais tarde, sua relevância cultural foi novamente reafirmada ao integrar o elenco do icônico espetáculo Divinas Divas, projeto histórico que reuniu os grandes nomes da primeira geração de artistas travestis do Brasil nos palcos.

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