A saudosa Laura Cardoso (1927-2026) é conhecida do grande público em boa parte pelos trabalhos que fez na Globo. Sua carreira televisiva, entretanto, esteve longe de se restringir à emissora carioca.

Uma das pioneiras do veículo no Brasil, a atriz era cria da TV Tupi e emendou vários trabalhos no canal fundado por Assis Chateaubriand (1892-1968) até sua extinção, em 1980. A estreia na Globo se deu no ano seguinte, em Brilhante (1981).

Após uma rápida passagem pela Band, Laura se instalou de vez no canal dos Marinho a partir de 1984, quando atuou em Pão Pão, Beijo Beijo e passou a emplacar uma novela atrás da outra na nova casa.

Ela já ostentava o perfeito status de “artista global” quando, no começo do novo milênio, decidiu se aventurar pela primeira vez em décadas para além dessa zona de conforto.

A artista aceitou um convite da Record para integrar o núcleo principal de Vidas Cruzadas (2000), trama de Marcos Lazarini que foi ao ar no horário nobre da casa e marcou o último trabalho do diretor Atílio Riccó (75) na TV brasileira, antes de se mudar para Portugal.

Vidas Cruzadas foi produzida em uma época em que a Record não investia tanto no setor de teledramaturgia, anterior à fase de orçamentos vultuosos inagurada com A Escrava Isaura (2004), que colocou a emissora em um novo patamar e a fez, por vezes, ameaçar a liderança da Globo em diversas faixas.

A história de Vidas Cruzadas girava em torno de uma troca de bebês. O milionário recifense Teodoro Oliveira de Barros (Sérgio Cardoso) se vê escandalizado diante da gravidez precoce da filha, Beatriz (Ângela Leal), e aceita uma proposta do comendador Aquiles (Juca de Oliveira) para assumir a paternidade da criança — desde que esta nasça homem.

Mas Beatriz dá à luz uma menina. Teodoro, então, decide trocar a própria neta recém-nascida pelo filho de seu motorista, Ambrósio (Mário Schoemberg), mandando a pequena Letícia para um internato na Suíça, a fim de que ninguém desconfie da troca. Anos depois, Letícia (Patrícia de Sabrit) é seduzida por seu ‘substituo’, Aquiles Oliveira de Barros (Alexandre Barillari), e abandonada grávida por ele.

O papel de Laura nesta narrativa rocambolesca foi o de Natália Oliveira de Barros, esposa do vilão Teodoro. Ela compartilhava com o marido o inconfessável segredo a troca de bebês, sendo, portanto, peça fundamental na trama que envolvia o reencontro da protagonista Letícia com sua família biológica.

A incursão além-Globo, entretanto, seria fato isolado àquela altura da carreira de Laura. No ano seguinte a seu ingresso em Vidas Cruzadas, ela voltou à emissora para atuar em A Padroeira e, dali em diante, nunca mais atuou fora do canal carioca. Seu último trabalho na casa foi a novela A Dona do Pedaço (2019), onde deu vida a Matilde.

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