A televisão brasileira perdeu, nesta segunda-feira, 17, uma de suas figuras mais importantes. Laura Cardoso morreu aos 98 anos, em sua casa, em São Paulo, por causas naturais. A atriz completaria 99 anos em 13 de setembro e deixa uma trajetória de mais de oito décadas dedicada à arte.

Considerada uma das pioneiras da televisão no Brasil, Laura começou a trabalhar ainda adolescente, no rádio, e construiu uma carreira que passou por novelas, cinema, teatro e dublagem. Ao longo dos anos, tornou-se conhecida por personagens em produções como Mulheres de Areia, de 1993, A Viagem, de 1994, Chocolate com Pimenta, de 2003, Caminho das Índias, de 2009, e Gabriela, de 2012.

Mas, além dos personagens que ficaram conhecidos pelo público, Laura também acumulou episódios curiosos, opiniões fortes e experiências pessoais que ajudam a contar a história da artista.

Confira as curiosidades sobre a vida da atriz:

Qual o verdadeiro nome de Laura Cardoso?

Quem se acostumou a ouvir o nome Laura Cardoso talvez não saiba que esse não era o nome registrado da atriz. Ela nasceu Laurinda de Jesus Cardoso e só adotou o nome pelo qual ficou famosa depois que começou a trabalhar no rádio.

A história foi contada pela própria artista durante uma participação no Provocações, da TV Cultura, em 2014. Na época em que trabalhava na Rádio Cosmos, um colega avaliou que Laurinda poderia não ser um nome fácil para o público guardar e sugeriu uma mudança. A primeira alternativa foi Ana, mas não agradou à jovem. Laura acabou sendo a segunda sugestão e foi o nome escolhido. O sobrenome Cardoso continuou fazendo parte de sua identidade artística.

Falta de apoio da mãe

A escolha pelo teatro e pela atuação aconteceu em um período muito diferente do atual. Laura cresceu em uma família de portugueses e encontrou no pai uma pessoa que compreendia seu interesse pelas artes. A mãe, porém, não via a carreira com bons olhos. O problema estava principalmente na reputação que o teatro carregava naquele período.

Mulheres que trabalhavam como atrizes eram alvo de julgamentos e preconceitos, e a profissão era associada a uma imagem negativa. Ao relembrar aquele contexto em entrevista ao Estadão, em 2023, Laura resumiu o preconceito que precisou enfrentar: “Quem fazia teatro era puta. Então, eu era puta”, disse ela.

A opinião da mãe, contudo, não mudou o caminho escolhido pela filha. Laura continuou trabalhando e, com o passar dos anos, tornou-se uma referência da dramaturgia brasileira.

A dublagem

Muito antes de se tornar uma presença constante nas novelas, Laura teve uma experiência que une sua carreira à animação. Entre 1963 e 1966, ela dublou Betty Rubble, personagem de Os Flintstones.

A atriz voltou a falar sobre o trabalho no Conversa com Bial, da Globo, em 2020. Ao recordar o período, demonstrou carinho pela personagem: “Amei fazer a Betty”, confessou.

A lembrança permaneceu viva mesmo décadas depois. Em 2023, um fã presenteou Laura, então com 96 anos, com uma boneca artesanal de Betty Rubble. A atriz compartilhou o presente e relembrou novamente sua participação na produção.

Situações de risco

Laura não tratava a preparação de uma personagem como algo superficial. Em diferentes momentos, ela buscou compreender fisicamente as situações pelas quais suas personagens passavam. Para interpretar mulheres submetidas à fome e à seca, por exemplo, chegou a restringir alimentação e água. A intenção era entender melhor as sensações que precisaria transmitir em cena.

Em outra ocasião, o envolvimento com uma gravação terminou em uma situação que hoje seria considerada extremamente arriscada. Na TV Tupi, Laura se jogou de uma escada quando estava grávida de seis meses. A história foi contada pela própria atriz à Veja São Paulo, em 2013. Ao resumir sua maneira de encarar o trabalho, ela afirmou: “Sempre fiz loucuras”, afirmou.

O cuidado com a carreira

Laura também tinha uma maneira própria de lidar com a carreira. Mesmo trabalhando com alguns dos principais autores da televisão brasileira, ela dizia não procurar essas figuras para conseguir novos papéis ou reclamar quando considerava pequena sua participação em uma novela.

Em uma entrevista à Veja São Paulo, a atriz citou nomes como Gilberto Braga, Manoel Carlos, Gloria Perez e Geraldo Vietri ao explicar que não recorria a eles para pedir personagens. A postura fazia parte da relação que Laura mantinha com a profissão. Depois de conquistar espaço, ela preferia concentrar sua atenção no trabalho que estava realizando, sem transformar os bastidores em uma busca constante por oportunidades.

A dedicação aos estudos

A longevidade também não fez Laura acreditar que um profissional pudesse parar de se preparar. Para ela, a atuação exigia conhecimento e dedicação contínuos. Durante o Provocações, em 2014, a atriz falou sobre a responsabilidade de quem escolhe a profissão: “O ator esquece que ele tem obrigação de ser culto, de ir à escola, de estudar a vida inteira”, afirmou.

Laura seguia o próprio conselho. Ela acompanhava reprises de trabalhos antigos para observar sua atuação e encontrar pontos que poderiam ser melhorados. Mesmo aos 96 anos, em entrevista à Folha de S.Paulo, demonstrava a mesma postura ao admitir que ainda tinha o que aprender sobre representação.

Nem tudo que fazia sucesso despertava admiração

A personalidade de Laura também aparecia quando o assunto era aquilo que consumia como espectadora. Durante as gravações de Flor do Caribe, em 2013, ela resolveu ler Cinquenta Tons de Cinza, livro de E. L. James que estava entre os grandes sucessos editoriais da época. A leitura, entretanto, não convenceu a atriz. À Veja São Paulo, ela deu sua avaliação sobre a obra: “Não estou gostando, é muito vazio”, confessou.

As novelas mexicanas também não escaparam de sua opinião. Em entrevista ao Estadão, em 2023, Laura foi questionada sobre as produções e respondeu: “O que é aquilo? É muito ruim…”, analisou.

Uma perda que deixou uma marca para sempre

Na vida pessoal, uma das experiências mais dolorosas foi a morte de um dos filhos. Laura foi casada com Fernando Balleroni, ator, diretor e roteirista que morreu em 1980. O casal teve Fátima, Fernanda e José. O menino morreu somente três dias depois de nascer.

Segundo Laura contou à revista Quem, em 2012, o bebê teve um problema ligado à incompatibilidade do fator Rh entre os pais. Naquele período, a medicina ainda não fazia o acompanhamento e a prevenção da condição da mesma forma que atualmente. O assunto continuava sendo doloroso muitos anos depois. Em 2024, durante o especial Tributo, da Globo, Laura falou novamente sobre o filho e revelou: “Ficou um vazio grande em mim. Nem gosto de falar disso”, disse ela.

A relação com o envelhecimento

Entre as escolhas pessoais que marcaram a fase mais madura da carreira esteve a decisão de não realizar cirurgias plásticas. Laura passou grande parte da vida diante das câmeras e, mesmo assim, preferiu não modificar o rosto para esconder os sinais do tempo.

Em entrevista ao Estadão, em 2023, ela contou que médicos chegaram a oferecer procedimentos, mas não se convenceu de que deveria fazê-los. “Essa é a minha cara, feia ou bonita, é minha”, declarou.

A frase resume uma postura que acompanhou a atriz durante décadas: Laura Cardoso não construiu sua carreira apenas pela quantidade de trabalhos realizados, mas também pela personalidade com que encarou a profissão, as transformações da televisão e o próprio envelhecimento. Ao morrer aos 98 anos, ela deixa uma trajetória que atravessou gerações e permanece como parte da história da dramaturgia brasileira.

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