Moacyr Franco (89) construiu um legado invejável de mais de cinco décadas como ator, cantor, compositor e humorista no Brasil. Mesmo sendo dono de uma mente brilhante e criadora de personagens icônicos, o artista viu sua longa trajetória profissional no SBT ameaçada. Para não perder seu valioso espaço criativo — que ele enxerga como seu maior bem —, o veterano chegou ao extremo de oferecer rasgar seu contrato vigente, propondo assinar um novo por apenas R$ 500 mensais ou até mesmo atuar completamente de graça na emissora.

A inusitada tentativa de redução salarial drástica ocorreu durante sua dispensa, em novembro de 2017, revelando o imenso apego emocional e profissional do humorista à sua arte. Saiba mais sobre como um dos maiores nomes do entretenimento nacional lutou para manter seu trabalho no ar e os bastidores financeiros reais de sua saída da TV.

De pintor de cartazes ao estrelato nacional

A impressionante ascensão de Moacyr Franco começou de maneira humilde. Nascido em Ituiutaba (MG), ele descobriu sua vocação quando trabalhava em uma oficina de pintura em Uberlândia produzindo cartazes e letreiros.

A grande virada ocorreu quando o maestro da Orquestra Tapajós precisou de serviços nas estantes do teatro. Moacyr propôs um acordo: pintaria tudo em troca da permissão para cantar com a orquestra.

Foi ali que ele aprendeu música, violão e piano, vencendo um concurso de calouros na Rádio Difusora aos 17 anos e dando início a uma carreira monumental.

Artista estará no elenco do seriado Segunda Chamada
Moacyr Franco – Divulgação/Instagram

O “patrimônio” criativo e a inusitada oferta de R$ 500

Ao invés de priorizar luxos, o verdadeiro patrimônio de Moacyr sempre foi sua incansável capacidade de criar. Quando os executivos do SBT o chamaram para anunciar seu desligamento após quase 20 anos ininterruptos de casa, o artista buscou qualquer alternativa para não parar de produzir.

Segundo relato do próprio ator ao podcast “O Programa de Todos os Programas”, ele sugeriu rasgar o documento atual e receber apenas R$ 500 por mês, somados ao plano de saúde. Diante da recusa dos executivos, ele chegou a implorar para fazer o programa de graça, ouvindo apenas um “por enquanto, não”.

O icônico banco de “A Praça É Nossa” no SBT

O espaço de ouro que Moacyr Franco lutava para não abandonar eram os estúdios do SBT, mais especificamente o icônico banco de “A Praça É Nossa”. O local funcionava como um cartão-postal televisivo do seu sucesso, onde imortalizou, a partir de 2005, o carismático caipira Jeca Gay e o bordão “Chic no Urtimo!”.

O enorme carinho pelo SBT e a reverência a Carlos Alberto de Nóbrega, a quem ele chama de “referência”, foram os combustíveis para sua tentativa desesperada e humilde de permanência no canal.

Salário de R$ 40 mil e a ironia com a “contenção de despesas”

A dispensa foi justificada pela direção da emissora como uma “contenção de despesas”. No entanto, logo após ser demitido, Moacyr Franco usou seu canal oficial no YouTube para abrir o jogo sobre suas finanças. Ele revelou que seu salário na época era de R$ 40 mil mensais — valor que o próprio considerava “insignificante” para os altos padrões televisivos. Com fina ironia, disparou no vídeo: “Torço muito para que meus R$ 40 mil salvem a economia da emissora”.

Ainda em seu pronunciamento na época, o ator expôs que aquele montante já era fruto de um grande sacrifício pessoal: cerca de cinco ou seis anos antes, ele havia aceitado um corte drástico de 70% em seus rendimentos, ficando com apenas 30% do salário original para continuar “jogando junto” com a empresa. A mágoa pela falta de visão comercial ficou clara em 2020, quando declarou ao Domingo Espetacular da Record: “Eu tenho pena deles. Não é por mim, é por não saberem aproveitar o conteúdo”.

Múltiplos talentos e uma carreira sem aposentadoria

Comprovando que o talento supera qualquer revés, a carreira de Moacir de Oliveira Franco, o eterno “Mendigo” da Praça da Alegria (1959), seguiu ativa e irretocável. Dono de 42 discos de ouro, canções eternizadas no sertanejo (como “Ainda Ontem Chorei de Saudade”) e até um Troféu Menina de Ouro no cinema por O Palhaço (2011), o mercado o abraçou novamente.

Em 2019, o SBT o recontratou como jurado do Shadow Brasil (Programa Raul Gil) e, em 2020, ele brilhou na TV Globo atuando na série Segunda Chamada. Descartando totalmente a aposentadoria, ele mantém o legado vivo: “Falo para os meus filhos: ‘Não deem sossego ao cérebro!’. Não paro de criar”.

Moacyr Franco
Moacyr Franco – Reprodução/Instagram

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