Antes de se tornar conhecido pelas receitas, pelo pão e pela televisão, Olivier Anquier (66) já tinha uma relação íntima com a fotografia. O interesse começou ainda na infância, influenciado pelo pai, o médico François Anquier (1924-1989), e permaneceu ao longo de sua vida quase como um segredo pessoal.

Agora, depois de décadas guardando esse material, Olivier decidiu abrir o arquivo. A exposição “Diário do Olivier: 20 anos descobrindo o Brasil”, que será inaugurada em 16 de setembro, reúne 55 fotografias autorais produzidas durante as viagens que deram origem ao programa exibido pelo GNT a partir de 1998. São registros de paisagens, personagens, cidades, estradas, festas e cenas cotidianas de um país que o francês escolheu conhecer de perto.

Mais do que uma retrospectiva do programa, a mostra revela um lado pouco conhecido de Olivier: o fotógrafo que estava por trás da câmera e que, durante anos, preferiu guardar essas imagens para si. “Essa é a primeira vez que abro meu baú de memórias, experiências e fotografias para o público. Sinto que chegou o momento de compartilhar em detalhes histórias que vivi nesses 20 anos de Diário do Olivier e lugares fascinantes que conheci pelo Brasil”, conta.

Um Brasil visto pela estrada

Durante duas décadas, Olivier percorreu o país em busca de histórias que normalmente não apareciam nos grandes roteiros turísticos. Passou por cidades, vilarejos e regiões pouco conhecidas, encontrando pessoas e tradições que ajudaram a construir sua própria relação com o Brasil.

Muitas dessas viagens foram feitas a bordo do famoso Fusca verde, que acabou se tornando uma espécie de companheiro de jornada do programa. As fotografias agora expostas registram justamente esse Brasil cotidiano: o que estava nas margens das estradas, nas conversas, nos rostos e nos lugares por onde Olivier passou.

A exposição funciona, assim, como uma espécie de diário visual. Não apenas das viagens, mas também das transformações de um homem que chegou ao Brasil em 1979 e, ao longo de quase cinco décadas, fez do país sua casa.

Fusca de Olivier Anquier - Foto: Angelo Pastorello
Fusca de Olivier Anquier – Foto: Angelo Pastorello

Uma paixão que começou muito antes da televisão

A fotografia não nasceu com o Diário do Olivier. Ela acompanha Olivier desde criança. Seu primeiro contato veio por meio das câmeras do pai, que registrava momentos da família. Com o passar dos anos, a fotografia permaneceu presente, mas longe dos holofotes.

Enquanto o público conhecia o chef, apresentador e empresário, poucas pessoas tiveram acesso a esse outro olhar. A exposição marca justamente esse momento de abertura. É a primeira vez que uma parte significativa desse acervo pessoal é apresentada ao público.

O movimento acontece depois de Olivier ter sido convidado para ocupar integralmente a edição nº 46 da revista C, publicação da Galeria Carcará dedicada à fotografia autoral brasileira — uma espécie de reconhecimento que também ajudou a tirar essa faceta do fotógrafo do campo privado.

Um arquivo que continua a história

As imagens que agora chegam às paredes não encerram a trajetória. Ao final da exposição, as fotografias e objetos apresentados serão colocados em leilão, em formatos presencial e virtual. Até mesmo o Fusca verde terá um destino especial. Parte do valor obtido com sua venda será destinada à Missão Belém, organização que atua no acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade no Centro de São Paulo.

É uma maneira de fazer com que objetos carregados de memória continuem circulando e produzindo novas histórias. A mostra integra o Arquivo Anquier, projeto dedicado às memórias e aos acervos de Olivier, mas o que está em evidência neste primeiro momento não é um novo endereço: é um pedaço de sua história que, durante anos, permaneceu guardado.

Afinal, depois de passar 20 anos viajando pelo Brasil para mostrar o país aos outros, Olivier Anquier agora faz o movimento contrário: abre suas próprias lembranças e convida o público a enxergar o Brasil através de seus olhos.

Olivier Anquier - Foto: Angelo Pastorello
Olivier Anquier – Foto: Angelo Pastorello