Até os quatro anos de idade, ela praticamente não falava. O silêncio da infância, no entanto, guardava uma das trajetórias mais sólidas da música no Brasil. Hoje, com quase quatro décadas de carreira, essa artista carioca reflete sobre como a arte transformou sua vida e sobre os desafios práticos de criar dois filhos em um mundo cada vez mais acelerado e digital.
Com uma postura sempre reservada, ela preferiu focar no trabalho em vez da exposição excessiva. A cantora viu o auge do disco de vinil, a explosão dos CDs e precisou se adaptar ao domínio dos aplicativos de áudio, mantendo um público fiel ao longo de todas essas transições. Aos 58 anos, ela encara a passagem do tempo com naturalidade e sem crises. “Não brigo com o tempo e procuro fazer o melhor uso possível dele”, relatou a intérprete, que imagina para si um futuro simples, dando aulas e tocando violão.
Foi durante uma entrevista de retrospectiva e celebração para a edição de 100 anos do jornal O Globo que a mulher por trás dessa “alma velha”, como ela própria se define, revelou detalhes de sua rotina. O nome dessa voz que marcou gerações é Marisa Monte. Na conversa, a cantora detalhou a dinâmica familiar, as transformações do mercado e as suas responsabilidades sociais.

A convivência com os jovens em casa
Casada com o empresário Diogo Pires Gonçalves, Marisa falou abertamente sobre a criação do primogênito Mano Wladimir, de 22 anos, e da caçula Helena, de 16. A artista contou ao O Globo que prefere muito mais a fase atual da maternidade, pois o crescimento dos filhos permite conversas diretas e trocas em pé de igualdade.
Na visão da cantora, a educação funciona muito mais pelas atitudes diárias da família do que por regras rígidas ou discursos longos. Ela faz um paralelo curioso com a sua própria profissão: “Filho é igual canção: a gente coloca no mundo e não tem controle, não sabe no que vai dar. E acho que, na educação, o exemplo pesa muito“, explicou. Atualmente, Mano cursa a faculdade de Design e tem facilidade com a pintura visual. Já Helena gosta de tocar piano e cantar, mas, por enquanto, mantém o talento apenas no ambiente doméstico.
Música clássica fora dos teatros
Longe de se acomodar com os sucessos do passado, Marisa continua buscando novos formatos. Ela estruturou um projeto focado em democratizar o acesso à música erudita. Em sua turnê, a cantora divide os holofotes com uma orquestra formada por 55 instrumentistas, sob o comando do maestro André Bachur.
A ideia central é levar o som clássico misturado ao violão e à guitarra para espaços populares, provando que a cultura deve estar ao alcance das pessoas comuns. Como a própria cantora destacou ao jornal, levar o formato de orquestra para parques e arenas abertas deixa de ser apenas uma teoria e se torna uma prática real de inclusão.
Impacto na educação e reconhecimento
A atuação da artista carioca se estende com força para fora dos palcos. Seu trabalho de pesquisa e seu engajamento em projetos sociais renderam a ela o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de São Paulo (USP). Com isso, ela se tornou a primeira mulher do setor cultural a receber tal reconhecimento da instituição em 90 anos.
Trabalhando como embaixadora do programa USP Diversa, Marisa ajudou a captar recursos para garantir a permanência de estudantes de baixa renda na faculdade. O engajamento do grupo foi tão expressivo que ajudou a pressionar e aprovar leis em Brasília, transformando a assistência estudantil em uma política pública federal.
Para as novas gerações que buscam espaço no mercado, a mensagem que ela deixa registrada na reportagem do O Globo serve como um guia: “A arte tem o poder de transformar o mundo, mas precisa começar transformando quem a faz”.
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