Viver junto só melhora a saúde se a relação não for estressante

Em toda relação há conflitos e sentimentos ambíguos. Ainda mais quando se vive junto. A tensão deve ser moderada e ficar abaixo de certo nível, além do qual prejudica a saúde. Pesquisas mostram menor incidência de doenças em casais que moram juntos e vivem bem, mas o stress excessivo pode provocar enfermidades tanto no homem quanto mulher.

Paulo Sternick
Paulo Sternick

Neste mundo virado pelo avesso, até o amor é alvo de pesquisas e estudos acadêmicos sobre a melhor forma de se viver. A última dos ingleses é esta: morar com alguém faz bem à saúde mais do que ficar sozinho. Com uma ressalva: se provoca stress, mais do que qualquer outra coisa, então, do ponto de vista médico, é melhor permanecer só! O critério usado foi o surgimento de doenças. É claro que, diante de tais conclusões, não vamos atribuir a cientistas o poder de decidir qual será nosso estado civil nos próximos anos, ou a forma mais saudável de amar. Na verdade, até podemos inverter o raciocínio e analisar esses estudos como um sintoma dos próprios pesquisadores, que também vivem nestes tempos confusos e incertos: se houvesse mais certeza sobre ficar junto ou não, quando e com qual par, essas pesquisas nem existiriam!

O fato é que atendem às dúvidas criadas nos pombinhos por uma sociedade liberal e individualista que rasgou o modelo único do passado, que quase não permitia a discussão sobre a melhor forma de viver: era incontestável a constituição do casal heterossexual, criador de filhos e unidos até a morte. Mas não foi a velocidade dos tempos pós-modernos, a era da globalização, do egoísmo e do materialismo que implodiram o monopólio do casal monogâmico. Foi o contrário: este modelo, quando causava infelicidade, revelou-se apertado demais, rígido o suficiente para, na primeira brecha oferecida pela cultura, expressar seu anseio de liberdade e mudança. O amor foi buscar relações e formas de vida onde a diversidade passou a responder melhor à verdade do desejo dele e dela para além das imposições familiares e religiosas. Fruto de uma época de certezas que acabou, a inércia conjugal foi destronada pelas verdades complexas de nossa vida e por aquilo que não tem vergonha, nem nunca terá.

Mas se ele e ela escaparam do rígido modelo exclusivo, se não preservaram em si referências e valores humanos, acabaram desorientados num mundo que ia perdendo princípios e exagerando nas possibilidades libertárias, materiais e sensoriais. De muito fechado, ficou aberto demais, a ponto de provocar vertigens e confusões. Se ele ou ela, seduzidos por extremo individualismo, acharam que podiam obter companhia e satisfação a seu bel prazer, sem prestar atenção às necessidades afetivas alheias e às próprias, cedo caíram na real de ver que, ou seus pares queriam algo mais – a relação estável e com amor -, ou eles iam decaindo de qualidade, ficando vazios e frustrantes, com satisfações sexuais plenas… de tédio. Segundo os médicos, os homens solteiros de até 35 anos ficaram com 50% mais de risco de terem problemas cardíacos. As mulheres, de contrair doenças crônicas.

Quem anda desligado deve perceber que, no “playground” dos laços passageiros, os cães da libertinagem dos tempos ladram, mas a carruagem do amor segue revitalizando seu caminho e mostrando a verdade de que o vínculo afetivo e leal entre duas pessoas é a mais salutar forma de viver a dois. Diminuem a angústia e o sentimento de isolamento, protegendo os pombinhos da fria selva pós-moderna. Mas nem todos podem, nem todos conseguem. Para estes, toda forma de amor vale a pena; e a vantagem é que a diversidade de hoje oferece mais oportunidades legitimadas. Mesmo porque, quando o casal se estressa mais do que se curte e se ama, a pesquisa adverte: faz mal ao coração mais do que ficar solteiro. Ela sugere que uniões problemáticas podem aumentar em 34% o risco de problemas cardíacos. Isso nos obriga a alterar o ditado, que agora fica assim: antes vivo do que mal acompanhado!