Sofrimento por amor nos ajuda a tornar melhor a relação seguinte

Ao estudar as relações, a antropóloga Elen Fisher concluiu que a paixão e o amor têm um tempo de duração. Uma realidade que muitos já enfrentaram ou vão enfrentar um dia. Na hora que terminam, quanto sofrimento. E não adianta fazer nada, só dar um tempo e curtir a dor. Um dia ela passa e nós, refeitos, nos sentimos mais preparados para viver um novo amor.

Vemos a todo momento na mídia notícias sobre casais famosos que casam, brigam, separam, reatam a união ou encontram novo par. Costumamos achar que para eles é fácil, logo estarão casados de novo. Não nos damos conta de que por trás desses fatos existe muita dor, tristeza, frustrações. Parece-nos impossível, por exemplo, que uma atriz ou modelo linda, rica e realizada na profissão se sinta rejeitada, traída e abandonada.

Mas separações e sofrimento por amor ocorrem com todos. Sempre que uma união acaba existe alguém se sentindo só, miserável, infeliz. Talvez um dos que melhor se expressaram sobre a infelicidade amorosa tenha sido Chico Buarque (62) na canção Pedaço de Mim, de 1977: “Oh, pedaço de mim/ Oh, metade afastada de mim/ Leva o teu olhar/ Que a saudade é o pior tormento/ É pior do que o esquecimento/ É pior do que se entrevar.”

A antropóloga e escritora americana Helen Fisher fez uma pesquisa na Universidade Rutgers, em Nova Jersey, sobre o que ocorre quando a paixão acaba e como fica emocionalmente quem foi rejeitado. Ela explica que a paixão, a fidelidade e o amor são gerados pelo cérebro – que trabalha a favor da perpetuação dos genes – e têm um tempo para terminar. Para os estudiosos, a paixão dura um ano e meio, dois anos no máximo. Mas saber isso não consola ninguém que foi rejeitado e sofre quando a paixão acaba de um dos lados. Pois em geral ela não termina para os dois companheiros ao mesmo tempo.

Quando nos apaixonamos, o ser amado é perfeito. Gostamos até de seus defeitos. É a fase da atração, das projeções. Na visão da psicologia, projetamos no ser amado nossos ideais românticos, o homem ou a mulher ideal que temos dentro de nós. Mas projetamos também aspectos negativos de nossa personalidade que são inconscientes em nós e neles e mais tarde se tornarão conscientes.
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Na fase da paixão, cada um se mostra para o outro com as suas melhores qualidades. É o período das coincidências, em que os dois gostam das mesmas coisas, concordam em tudo. O objeto amado é o centro das atenções. Necessitamos de sua presença, de ouvir sua voz. O desejo torna-se obsessivo, parece que não podemos viver sem ele. Ficamos como que “drogados” e queremos uma “dose” maior.

Passada essa fase, se os dois têm maturidade, desejam realmente um companheiro e são estáveis psicologicamente, a paixão pode se transformar em amor. Começamos então afazer planos para uma vida a dois e a constituição de uma família. Agem assim as pessoas que têm planos a longo prazo, desejam um futuro tranqüilo e sabem que gostar de alguém implica aceitar também seus defeitos. Mas existem também os que pensam e fazem diferente. Para eles, terminada a paixão é preciso descartar logo o parceiro e se apaixonar de novo. No lugar das antigas uniões para a vida inteira, então, tem-se o fenômeno atual das “monogamias sucessivas”: relações intensas, descartáveis e de curtíssimo prazo.

O parceiro que foi deixado, claro, viverá um período de luto e de dor. Nessa época pensamos de maneira obsessiva no ser amado e nos culpamos: “Por que agi assim?” “Por que ele ou ela fez isso comigo?” “O que devo fazer para reconquistá-lo ou reconquistá-la?” Lembramonos da última briga, queremos voltar no tempo para que nada do que ocorreu tivesse de fato ocorrido. Mas não adianta. Temos de viver a infelicidade até que desapareça. Não podemos fugir da dor. Ela é necessária, nos fortalece. Se partirmos logo para outra relação, sem esperar um período de luto, vamos repetir os erros. O melhor é curtirmos a dor, fecharmos para balanço e, após catar os pedaços, juntá-los de novo. Depois de um tempo, a dor passa. Temos um sentimento de ser só uma metade e estamos sempre buscando quem nos complete. Então é deixarmos a roda da vida girar novamente, sorrirmos e nos prepararmos com esperança, fazendo novos planos e vivendo outras emoções cada vez mais inteiros.