Segundo a Bíblia, com as hospedarias cheias em Belém, Jesus nasceu…

...num estábulo, palavra que veio do latim stabulum. Verdade ou não, como outros fatos ligados a Ele, pouco importa. O que vale é que nos ensinou atitudes fundamentais, como a generosidade, do latim generositate.

Deonísio da Silva
Deonísio da Silva

Estábulo: do latim stabulum, ligado a stare, estar de pé, em oposição a jacere, jazer, ficar deitado. Foi num estábulo, segundo as narrativas cristãs, que Jesus nasceu, entre os anos 2 e 6 a.C. Esta data curiosa deve-se ao famoso erro de um monge chamado Dionísio (século 6), que se perdeu nos cálculos no momento de definir o ano 1 de nossa era. O Menino Jesus teria nascido num estábulo porque sua família, tendo viajado de Nazaré a Belém para atender ao censo determinado pelo imperador romano, encontrou a pequena Belém com as hospedarias lotadas. O abrigo que restou foi uma gruta utilizada por animais. Por isso, o presépio representa Jesus deitado numa manjedoura, espécie de cocho, onde comiam um burro e um boi, que aparecem a seu lado. Um portal português apresenta na Internet uma brincadeira sobre a visita que os reis magos fizeram a Ele, que, polêmicas à parte, é engraçada. Diz: “O que se teria passado se, em vez de três Reis Magos, tivessem sido três Rainhas Magas? Teriam perguntado como chegar ao local e teriam chegado em tempo. Teriam ajudado no parto e deixado o estábulo a brilhar. Teriam ainda preparado uma panela de comida e teriam trazido ofertas mais práticas. Mas quais teriam sido os seus comentários ao partirem? – Viste as sandálias que a Maria usava com aquela túnica? O menino não se parece nada com o José! Como é que é possível que tenha todos esses animais imundos a viver dentro de casa? Disseram-me que o José está desempregado! Queres apostar em como não te devolvem a panela?” De todo modo, os magos não eram três, nem reis, nem tinham nomes, de acordo com os Evangelhos; no entanto, ficaram para sempre numa das mais encantadoras lendas cristãs.

Generosidade: do latim generositate, declinação de generositas, generosidade, palavra ligada a gente, declinação de gens, grupo familiar da antiga Roma, que incluía os fâmulos (escravos); dessa palavra, aliás, vem o nome família. Assim como a nobreza de caráter, a generosidade foi inicialmente creditada à raça e à classe social, mas com o tempo se verificou que o povo tende a ser mais generoso que as elites, dando provas disso freqüentemente, sobretudo em momentos adversos como as enchentes, os terremotos e outras catástrofes. A generosidade do povo brasileiro para com seu semelhante foi enaltecida pelo escritor e poeta inglês de origem indiana Joseph Rudyard Kipling (1865-1936), Prêmio Nobel de Literatura em 1907, que esteve em visita ao país em 1927. Na ocasião, ele escreveu sete artigos para o jornal Morning Post, depois reunidos em livro pelas Edições Sussex sob o título Brazilian Sketches. Na obra, que acaba de ser lançada pela Editora Landmark em edição bilíngüe, com o título As Crônicas do Brasil, Kipling elogia ainda “an illegal fascinating play called The Beasts”, referindo-se ao já então popular jogo do bicho, que, segundo ele, obrigava ao trabalho, já que os bicheiros não aceitavam mantimentos, perecíveis ou não, impondo a moeda e desse modo evitando o escambo. Diz o premiado escritor que, “para jogar Os Bichos, um homem deve ter alguma ocupação que traga dinheiro”, porque “a banana toma o lugar da Pensão Governamental”.

Leitão: estranho aumentativo de leite, do latim lacte, leitão designa o filhote de suíno já crescido e resulta da idéia de que, caso continue mamando nas tetas da porca, como fazem muitos com as tetas do governo, precisará de bastante leite. O leitão também é chamado de bacorinho, do árabe bakuri, aplicado inicialmente ao cordeiro. No Natal, costuma ser servido assado e com uma maçã na boca. Se reunirmos todos os leitões do Natal, teremos um alfeire, uma manada, um persigal, uma piara, uma porcada, uma porcalhada, uma porcaria, uma suinaria e, por fim, uma vara, o mais comum de todos esses coletivos. No tempo em que o dízimo recolhido pela Igreja no Brasil era pago em frutos, cereais e animais, o porco era, depois do novilho, o mais valioso: 20 réis (plural de real, a antiga moeda, que agora voltou). O frango, quase sempre abundante e barato, valia 7,5 réis. O dízimo, que era imposto nos tempos monárquicos, voltou a ser dado de acordo com a vontade do freguês, isto é, do fiel de cada freguesia, o filius ecclesiae.

Rena: do sueco ou do norueguês ren, pelo francês renne, rena, mamífero da família dos cervídeos (Rangifer tarandus), que habita Europa, Ásia e América do Norte. As renas de Papai Noel são nove, nascidas de uma história inventada pelo professor norte-americano Clement Clarke Moore (1779-1863), no Natal de 1822, para entreter os filhos, intitulada A Visit from Saint Nicholas (Uma Visita de Papai Noel). No texto, ele diz que o trenó do bom velhinho é puxado por oito renas: Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donder e Blitzen. No Natal seguinte, em 1823, a história de Moore foi publicada sem sua autorização e desde então se tornou muito popular. Em 1939 foi acrescentada a nona rena, diferente das outras por trazer luz vermelha no nariz, chamada Rodolfo, que protagonizou um belo filme, aparecendo como filhote abandonado, depressivo, mas cuja história chega a um final feliz, como é de praxe em histórias de Natal.