Pirata, do grego peiratés, é o bandido que saqueia navios, mas…

...passou a designar também cópia irregular de obras artísticas. Nerd, do inglês nerd, nome de pássaro em livro infantil norteamericano, ganhou igualmente outros significados, como o de aficionado por computador.

Deonísio da Silva
Deonísio da Silva

Abuso: do latim abusus, abuso, mau uso, pela formação ab, a, mais usus, uso, significando desvio do uso correto. Numa entrevista coletiva, Jânio Quadros (1917-1992), então governador de São Paulo, defendeu o rigor de sua administração, depois de reconhecer que ela “não poderia escapar dos excessos”, por representar e incorporar “a cólera popular”, acrescida de “traços de violência que a caracterizam”, pois é “a correção, última e invencível dos abusos de qualquer natureza”. O trecho está no livro de J. Pereira Bilhetinhos de Jânio (Editora Musa, 1959, esgotado). A Lei 4 898, de 9 de dezembro de 1965, enquadra os casos de abuso de autoridade, sujeitando o infrator a sanções administrativas como advertência, repreensão, suspensão do cargo até 180 dias, destituição de função e demissão. Com 29 artigos, essa lei foi assinada pelo então presidente Humberto de Alencar Castello Branco (1900-1967).

Pirata: do grego peiratés, pelo latim pirata, chegando ao italiano pirata, última escala da viagem da palavra até chegar ao português, conservando o modo de escrever do latim e do italiano. Pirata é, originalmente, o bandido que pilha navios. Hoje, porém, a palavra é usada também para designar emissoras de rádio e TV clandestinas e as cópias irregulares de obras artísticas como CDs e DVDs, que são vendidas por camelôs, burlando as leis de proteção aos direitos autorais. Criou-se, então, a expressão cópia pirata, na qual o vocábulo foi conservado como adjetivo à direita do substantivo, omitindo-se o hífen, como acontece também em seqüestro relâmpago e funcionário fantasma. No livro Uso do Hífen (Editora Manole), acompanhado de CD-ROM com sistema de busca, o jornalista Eduardo Martins fixa as razões da consolidação das duplas de palavras sem hífen: “a grande dificuldade na divergência das fontes” e a necessidade que a imprensa teve, nos últimos 20 anos, de preencher a omissão dos dicionários. Tais fatores o levaram a reconhecer essas palavras como “adjetivos, com singular e plural, ligandose ao substantivo que os precede sem hífen”. Ele sabe do que fala: é autor de outras obras de orientação para escrever corretamente, entre as quais o Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo. Os dicionários são contraditórios na prescrição do hífen. O Aurélio recomenda “normapadrão” e “língua-padrão”, mas “desvio padrão” e “modelo padrão”.

Mandato-tampão: do latim mandatus, missão, e tampão, do francês tampon, forma nasalada de tapon, rolha, mecha, pano ou chumaço utilizado para preencher orifício, tido também como aumentativo de tampa. Na política, mandato é o tempo de exercício do cargo para o qual o candidato foi eleito. A expressão mandato-tampão referese ao mandato que, tendo sido interrompido, tem uma parte de seu exercício preenchida por outro que não o titular, até que seja oferecido novo mandato pleno. Não confundir mandato com mandado, encargo, ordem, como em “mandado de segurança”, que é uma obrigação judicial a ser cumprida. O uso freqüente de expressões como “mandato-tampão” e “manda-chuva”, especialmente no meio político, consagraram o hífen, ainda que este sinal esteja moribundo diante da proposta de aboli-lo, por acordo em via de ser assinado pelas nações lusófonas, que incluem Brasil, Portugal e países africanos de língua portuguesa. Muitas emendas de parlamentares propuseram mandato-tampão; nenhuma delas usou o hífen.

Nerd: do inglês nerd, ainda sem assimilação no português, como ocorre com punk, hippie, freak e geek, entretanto de largo uso em textos que tratam de informática, da Internet e domínios conexos. O vocábulo apareceu designando um pássaro exótico em Se Eu Controlar o Zôo, um dos 46 livros infanto-juvenis do Dr. Seuss, pseudônimo do autor norte-americano Theodor Seuss Geisel (1904-1991), que vendeu mais de 200 milhões de exemplares. Com o tempo, nerd passou a se aplicar ao aluno excessivamente dedicado aos estudos, que não sai da biblioteca, marginalizado por não praticar esporte algum, evitar os grupinhos no corredor e ler muito mais do que os membros das tribos adolescentes, servindo de sinônimo para gente chata e fora de moda. A palavra ganhou novo significado com o surgimento de tecnologias como o computador, o celular e a Internet, designando aqueles que são aficcionados por essas novidades eletrônicas. Outro exemplo de palavra nascida da manipulação de novas tecnologias é o inglês geek. Com origem no alemão Geck, almofadinha, mauricinho, a palavra foi usada com sutis variações de significado pelo dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare (1564-1616) e hoje serve para identificar quem tem excessivo interesse por qualquer novidade, sofrendo de neofilia.