Pessoas que não se entregam vivem relações superficiais e sem graça

A entrega, o dar-se a conhecer, é muito importante para o crescimento tanto dos companheiros quanto da relação. Mas existem pessoas que, por medo ou por egoísmo, escondem do outro os próprios sentimentos. Assim, não se envolvem e acabam vivendo uniões sem vida, que não se sustentam. Como controlam tudo e não se arriscam, também dificilmente aprendem a amar.

Enfatizei recentemente a importância da entrega para que as relações durem mais. Há varias razões para que alguém receie entregar-se, como o medo de sofrer. Mas existem aqueles que, egoístas, evitam a entrega manipulando e controlando o parceiro.

As nossas ações são motivadas por pensamentos conscientes e inconscientes, por sentimentos e emoções. Alguns, como respeito e ternura, são considerados “positivos”; outros, como ciúme e raiva, são considerados “negativos”. Todos contribuem para relações vivas e dinâmicas.

Quando não há entrega, a pessoa “esconde” atitudes e pensamentos tidos como negativos ou que depõem contra ela. Se os expõe, o faz de modo a culpar o outro por eles. É o que ocorre quando alguém diz: “Você me dá raiva”, ou “Você faz de tudo para me deixar com ciúme!”

Quem se entrega responsabiliza-se por atitudes, ações e sentimentos manifestando-os sempre que necessário para a saúde da relação. Assume o que é virtuoso e o que não é. Dá-se a conhecer. Se um rapaz assume que é ciumento e seu jeito de interpretar e lidar com os fatos pode ser ruim para a união, dirá algo assim à namorada: “Tenho ciúme quando ouço você falar com Fulano ao telefone. Minha cabeça cria fantasias sobre vocês, tenho raiva e vontade de brigar com você. Gostaria de não me sentir assim, tento evitar esses pensamentos, no entanto me sentiria bem melhor se você me ajudasse. O que podemos fazer a respeito?”

No caso, não culpa a moça pelo que pensa e tem vontade de fazer. Não a critica nem toma atitude unilateral. Sabe que o ciúme pode ser fruto de seu jeito de ver as coisas. Ao assumirse assim, ele se entrega. Coloca parte de si nas mãos do outro, faz um investimento afetivo. Como na área financeira, investidores afetivos não gostam de correr riscos desnecessários, por isso quem se entrega se compromete e espera compromisso da outra parte.

Se a moça for egoísta e manipuladora, não vai querer envolvimento. Controlará a própria entrega “selecionando” o que dá a conhecer. Mostrará o que não compromete. Também pode manipular a entrega do namorado para não sentir-se ameaçada e pressionada a se expor mais do que gostaria.

Isso cria o clima de desconfiança que caracteriza a “não-relação” superficial e morna que não se sustenta. Egoístas não querem relações consistentes, assusta-se com o compromisso, teme perder uma ilusória liberdade. Digo ilusória pois alguém que não se permite entrega está encarcerado em si. Quem teme não ser aceito não é livre, não “se solta”.

Pessoas assim costumam dizer que desejam só “o lado bom” das relações, por isso ficam no meiotermo: não se entregam nem rompem. Não estão no branco nem no preto. Ficam no cinza, sem vida, sem a intensidade das emoções. Quando a relação se constrói pelo investimento de ambos, tem crises como qualquer outra, mas o casal não teme momentos difíceis, tem confiança na parceria.

A entrega é uma atitude, é acreditar em si e apostar no outro. Mas, dirá o leitor, como apostar no que é desconhecido? É verdade. Temos medo de sofrer e receamos nos entregar a alguém que não conhecemos e pode nos magoar. Mas, se não enfrentamos o medo, como saber se a pessoa que escolhemos é confiável? Se não nos entregamos porque esperamos a entrega do outro, como podemos ser valorizados? Se não assumimos riscos e ousamos na medida da nossa capacidade de suportar o sofrimento, como vamos valorizar a entrega do outro? De que outra forma aprenderíamos a amar?