O sucesso e a inteligência não são garantia de uma vida amorosa feliz

A vida amorosa envolve sentimentos cujas fontes são profundas e nem sempre coerentes. Por isso, bem-sucedidos podem tropeçar em impasses e dilemas afetivos e não conseguir superá-los sem ajuda. Isso ocorre pois nossa mente não é uniforme nem homogênea: é racional e funciona nas questões objetivas. Mas, no caso do amor e do afeto, sofre interferência de fatores incontroláveis.

Paulo Sternick
Paulo Sternick

Observamos em nós ou nas pessoas próximas o lado inteligente e bem-dotado para o trabalho e tarefas objetivas. Admiramos o talento para amizades e vínculos sociais. Mas, quando fazemos um retrospecto da vida amorosa, que desastre! Não exageremos, porém: mesmo os mais azarados às vezes têm sorte por um tempo. Quando se trata de desejo, contudo, nem sempre o habitual bom senso consegue se impor.

Há os bem-sucedidos em vários setores que tropeçam em escolhas afetivas erradas, mesmo quando desde o início de cada convívio percebem estar entrando novamente de gaiato no navio. Nós, psicanalistas, vemos isso na clínica: a mente desfruta de área livre de conflitos e habilita muitos afazeres, mas o amor brota de um núcleo mais complexo e obscuro de onde provêm sentimentos que não escolhemos ou controlamos. É a fonte inconsciente de nosso ser. Notamos, por exemplo, que os objetos de amor, ou seja, o homem ou a mulher que causam no sujeito intenso e obstinado desejo, são às vezes os que mais combinam também para contracenar conflitos e impasses. Não raro, pombinhos selecionam relações que irão se transformar em confusão ou vazio.

Tais situações causam infelicidade, mas são também uma espécie de “caixa preta” que contém os segredos do desastre afetivo. Em vez de só fugir para as noitadas e manter casos de “alta liquidez”, é preciso abrir e examinar a “caixa preta” do coração, extraindo elementos que conduzem ao impasse, elucidar as causas dos desencontros e aprender com a experiência. Caso contrário, tende-se à repetição: o indivíduo infeliz, e não analisado, a cada vez imprime um padrão inadequado de escolhas, mudando só os personagens.Oque faz com que ele acabe sempre tendo de rimar amor e dor. E há os que ainda acham que basta competência e riqueza – e o amor lhes cairá do céu.

Mas é preciso não se iludir e desenvolver “emoção inteligente”, um mix de paixão e razão, destinada a afinar escolhas e evitar o fracasso repetitivo nas relações. Mas essa é uma área em que ninguém está livre de enganos e fracassos. Porém, só é trágico, se não fosse cômico. Afinal, quando se trata de amor, é prudente guardar razoável dose de bom humor, pois a espécie humana é mesmo atrapalhada nessa área. Devemos nos olhar com clemência bem-humorada, sem excesso de autoindulgência, mas com certo carinho por nossas imperfeições, a fim de deixar a porta aberta para benigna autocrítica, e melhor vislumbre das armadilhas que criamos para nós. Isso é bem diferente da condenação cruel e implacável que faz a pessoa se sentir incorrigível fiasco, empurrando-a para a amargura inerte, e não para a mudança.

Quando o bom senso não consegue corrigir escolhas desastradas, convém fazer análise e investigar que tipo de paixão nos atravessa, para onde nos conduz e o que revela de nós mesmos. A paixão sem a razão é cega, mas a razão sem a emoção é sinistra: só temos a ganhar com esse equilíbrio. Mas que ninguém imagine acertar na mosca: o único par amoroso possível é o par imperfeito. A história de alma gêmea é fantasia parecida com a da cegonha: na verdade, almas foram feitas, ao mesmo tempo, para o encontro e a discórdia. Só após admitir que é inviável concretizar sonhos irreais é que somos aptos a conviver e amar alguém real: nosso par imperfeito, singular cúmplice da desistência do amor ideal, mas aliado do desejo recíproco de viver – a dois – o bom, o mau, o feio e o bonito.