O avanço tecnológico nos trouxe inúmeras facilidades e prazeres. No terreno amoroso, tem sido um instrumento importante para as relações, e não somente para aquelas que se mantêm a distância. Celular, computador, Internet e todas as outras tecnologias que entraram para o nosso cotidiano podem dar um colorido especial às uniões. Mas também podem trazer problemas.

Venho observando, dentro e fora do consultório, os tormentos que tais tecnologias têm trazido à vida a dois. Não é para menos. Esses progressos mudaram a forma como as pessoas se relacionam e escancararam as portas para potenciais encontros, reencontros, flertes, traições, fantasias. Paralelamente, despertaram o bicho curioso, possessivo e ciumento que existe em cada um de nós.

É claro que sempre houve traição, flerte, sedução, vida dupla e todos os tons possíveis de infidelidade. O que mudou, então? Bem, o fato é que ficou mais simples e tentador cometer algum deslize, até para os mais corretos, tímidos ou temerosos. E tornou-se mais fácil ser descoberto.

Por outro lado, sempre houve invasão da intimidade do parceiro. Mas, se antes se buscava investigar sua vida passada e presente lendo às escondidas sua agenda ou diário, vasculhando sua carteira ou revistando suas gavetas, armários e álbuns de fotos, agora há um universo inesgotável de formas – mais eficazes e menos arriscadas – por meio das quais podemos rastrear os passos dados pelas pessoas com as quais nos relacionamos. O Orkut e todas as outras redes virtuais de relacionamento são o exemplo mais óbvio, já que nesses sites é possível acessar todos os contatos da pessoa, e ver as suas trocas de recados, depoimentos e fotos, assim como as de todos aqueles com os quais ela se comunica. Com isso, em poucos minutos pode-se fazer uma série de conexões de fatos, abrindo caminho para desconfianças e flagrantes reais ou imaginários.

Embora existam vários recursos para nos protegermos do olhar e da vigilância alheios, estamos mais visíveis do que nunca. Não existe mais privacidade total, já que outras pessoas também podem nos expor – de forma intencional ou não. E alguns atos, ao se tornarem públicos, podem ser humilhantes ou ofensivos àqueles com os quais dividimos a vida, e tomar uma proporção bem maior do que teriam num universo privado, levando a graves conseqüências para nossos afetos.

As tentações aumentaram, seja para uma pessoa se tornar infiel em algum grau, seja para se tornar invasiva e controladora da vida alheia. Difícil dizer qual dos males é maior. Ambos são nocivos para a harmonia e para a estabilidade no amor. Logo, cada um que se utiliza desses novos recursos tecnológicos tem de descobrir o que realmente é saudável, útil e prazeroso para sua vida pessoal e amorosa e o que pode colocá-la em risco. Quando se trata de um casal, é preciso que se criem parâmetros válidos para ambos. As fronteiras entre o aceitável e o inaceitável, entre o tolerável e o intolerável, devem estar claras desde o início e ser reforçadas sempre que necessário. É fundamental, sobretudo, que haja um código compartilhado. Desse modo será possível, senão evitar, ao menos minimizar os estragos. E também desfrutar os benefícios das tecnologias, que, quando utilizadas com bom senso e criatividade, podem dar mais sabor às relações.