Nem todo jovem gosta de “ficar” e não existe nada de errado nisso

Por ter tendência ao apego, gostar mais de segurança do que de aventura ou por influência dos pais, alguns adolescentes preferem o namoro aos relacionamentos fugazes, em voga atualmente. O único problema dessa opção é que se sintam inferiorizados no seu grupo etário. Aos pais, cabe oferecer apoio em caso de ansiedade pela situação, mas sem interferir na autonomia dos filhos.

Nahman Armony
Nahman Armony

Puberdade e adolescência são um período de transição, quando a criança se desprende dos pais em favor de grupos de sua faixa etária. A opinião do grupo se torna cada vez mais significativa, empurrando para a periferia a importância da aprovação dos pais, embora estes, no inconsciente do adolescente, continuem a ser o esteio de segurança. Mas a ideologia do grupo exerce poderosa pressão sobre o jovem. Uma ideologia corrente atual é a do “ficar”, que significa encontros sem compromisso. O “ficar” é um valor positivo nos grupos adolescentes. Como ninguém quer estar out, este valor é exercido pelos jovens. Mas há os que não se sentem bem com tal prática. São vários os fatores que levam os jovens a gostar ou não do “ficar”. Darwinianamente falando, como as mulheres produzem relativamente poucos óvulos na vida fértil, têm de escolher o parceiro sexual mais perfeito possível. Então fazem uma seleção cuidadosa, não se deixando fecundar por qualquer um. Já o homem, cujos órgãos sexuais produzem milhares de espermatozóides, busca garantir a transmissão e a sobrevivência de seus genes fecundando o maior número de fêmeas possível. Nós, humanos, estamos longe desse nível biológico; mas, quando se faz um levantamento mais global, é mais um fator a levar em conta.

O psicanalista húngaro Michael Balint diz que cedo se desenvolvem no ser humano tendências para o apego ou desapego ao objeto de amor. Poderíamos dizer que no “ficar” predomina o desapego e no namorar predomina o apego. Teríamos, portanto, dois tipos de pessoas: um com medo de intimidade, precisando passar de parceiro para parceiro, e outro com medo da novidade, da aventura, precisando se fixar em algo conhecido. Essas duas tendências existem conjuntamente em proporções diferentes nas pessoas. Mas em algumas a predominância de uma é tão poderosa que a outra renuncia à sua expressão.
Outro fator é a ideologia dos pais. Embora, como disse, em certo período da vida o jovem a abandone para adotar a ideologia do grupo, o abandono total é uma impossibilidade, pois a influência dos pais penetra na psique dos filhos. Ela pode diluir-se quando outros fatores entram em jogo, mas sempre estará presente. Assim, se a mentalidade da família for conservadora, o jovem ou terá mais dificuldade com comportamentos liberados ou os realizará de forma exagerada, como reação à poderosa proibição interna que carrega. Fazem parte também do equipamento pessoal a curiosidade pelo novo, pelo perigo e o gosto pela segurança, pelo conhecido.

Portanto, muitos são os fatores envolvidos e sua resultante dependerá do jogo de forças entre eles. Poderá ocorrer de o jovem se ver impulsionado a adotar comportamento diferente do dos amigos, o que o fará sentir-se excluído, inferiorizado, incapaz de acompanhar seu grupo etário. Então os pais, valendo-se da vinculação filial, podem se apresentar para auxiliá-los. Mas deverão ser discretos, pois os filhos, mesmo precisando de reconhecimento e apoio para o comportamento divergente de seu grupo, mantêm o desejo de independência dos pais. O apoio e a aceitação deverão ser oferecidos com cuidado para que o jovem não sinta que estão querendo lhe retirar a independência.