NAMORO DE PAIS SEPARADOS REQUER CUIDADO COM O CORAÇÃO DOS FILHOS
No passado eram os jovens que ficavam constrangidos quando queriam trazer o namorado ou a namorada para dormir na casa da família. Agora, os pais e as mães separados vivem o mesmo dilema. Eles têm o direito de buscar de novo a felicidade, mas precisam lidar com a sensibilidade dos filhos para a questão, especialmente se eles forem bem novos e imaturos.
A situação é muito comum hoje: pais separados iniciam uma nova relação e ficam desorientados sobre como proceder com os filhos. Nada mais natural. A experiência é nova e eles não têm referências para suas atitudes e decisões. Será que devem apresentar logo ele ou ela aos filhos, trazê-los para dormir em casa, passar a noite fora? Palpites de amigos, livros de autoajuda ou dicas psicólogicas nem sempre estão isentos de generalizações superficiais ou livres de posições ideológicas – ora ultraliberais, ora superconservadoras. A verdade é que cada situação é singular. O timing (momento oportuno) para cada passo vai depender da idade dos filhos, da sensibilidade e da capacidade deles de lidar com a situação, da história familiar – enfim, de múltiplos fatores. Alguns princípios, no entanto, têm alcance e aplicação mais amplos e devem ser considerados por todos.
Sob as pressões da atualidade já é frequente que as pessoas não encontrem espaço para se lembrar dos direitos do outro. Tendem a ficar absorvidas no próprio narcisismo, dando extrema importância às razões e aos desejos próprios, sem atentar para a subjetividade – e segurança – de quem está em volta. Pais separados, absorvidos por suas carências e necessidades, são ainda mais sujeitos a ter esse tipo de atitude. Alguns se esquecem de que os filhos também foram atingidos pela ruptura da família. E, quanto mais novas as crianças, mais vulneráveis ficam a esse “desconhecimento” dos pais, pois têm expectativas de atenção em relação a eles – que são as pessoas mais importantes do mundo para elas.
De maneira geral, a despeito da vontade de integrar logo um namorado ou namorada na relação com os filhos, convém aguardar algum tempo, o suficiente, pelo menos, para ver se o relacionamento tem consistência. No mundo de hoje, todos sabemos, os laços tendem a ser frágeis e líquidos e, se for possível, vale a pena preservar os filhos de ver os pais trocando de parceiro o tempo todo.
Trata-se de adotar uma ética da responsabilidade, em lugar da ética da verdade. Não cabe aqui o constrangimento de não ser transparente; afinal, os pais também tratam de outros assuntos com discrição, não raro em segredo. E essa história de apagar as diferenças entre pais e filhos, ou entre adultos e crianças ou jovens não é uma atitude que colabora para a construção da identidade e do caráter dos filhos. Só traz confusão.
Não custa nada, portanto, evitar situações mais íntimas – como trazer parceiros para dormir em casa, ou passar frequentemente a noite fora de casa – até que os relacionamentos caminhem para certa estabilidade. Enquanto isso, cabe observar como evolui a integração entre os filhos e a nova presença na casa, até que esta seja assimilada.
Claro que os pais têm o direito de retomar a vida amorosa. Mas fazer as coisas a seu devido tempo e de forma criteriosa ajuda a evitar culpas e constrangimentos que podem até prejudicar a nova relação, além de ferir a sensibilidade dos filhos. Tudo, de qualquer modo, tem limite: a atitude resignada e altruísta que alguns pais e mães adotam, de nem tentar outras relações unicamente para preservar os filhos, deve ser olhada com desconfiança. Às vezes esse modo de agir apenas oculta uma desculpa que protege das inquietações inerentes às novas situações de relacionamento.