Na busca por um amor, beleza até ajuda, claro, mas não é suficiente

Muitos jovens malham nas academias achando que o corpo esculpido atrairá o afeto que tanto procuram. Estão enganados. Criados para valorizar a estética e a sedução, eles não cultivaram o espírito e têm pouco, além do sexo, para oferecer a um parceiro. Suas relações não duram e sua insatisfação é permanente. O único jeito de virar esse jogo é buscar o crescimento interior.

Tereza é uma jovem bonita. Pelas roupas caras que usa, percebe-se ser valorizada e bem remunerada no exercício da profissão. Ninguém diria que tem dificuldade nas relações, mas bastam 10 minutos de conversa para notar que se preocupa demais com a aparência e, apesar de todo o esmero, não é segura de si. Parece modelo de revista e se acha feia. Queixa-se de solidão e fala do desejo de encontrar um homem que a valorize pelo que é interiormente, já que, segundo ela, não possui atributos físicos.

O leitor pode pensar que pessoas assim são raras. Não. Em meu trabalho, deparo o tempo todo com homens e mulheres de corpos lindos, mas tensos, rígidos pelo excesso de musculatura. Esse excesso é um sintoma e não a causa do problema. Eles lutam para aperfeiçoar as curvas imaginando com isso obter afeto e amor. Entretanto, como se sentem vazios, não obtêm o que desejam e tornam-se eternamente insatisfeitos.

Gastam pequenas fortunas moldando o físico, mas continuam imperfeitos na arte de relacionar-se. No fundo, acreditam que não são merecedores de afeto. Provavelmente foram crianças privadas de elogios ao expressar o intelecto, os sentimentos e a empatia, mas recebiam aplausos quando se esmeravam em dançar “na boquinha da garrafa”, mostravam vaidade de adulto ou diziam namorar coleguinhas da escola.

Pessoas assim têm muita dificuldade em estabelecer relações afetivas verdadeiras, usam o corpo para seduzir e, quando alguém se interessa por elas, costumam desconfiar desse interesse e adotam postura defensiva que inviabiliza a entrega. Naturalmente, quem percebe tal postura reage de modo igualmente desconfiado e, uma vez que ambos reprimem o afeto, resta o sexo como forma de encontro.

É comum um casal de pessoas com tal perfil apaixonar-se. As idealizações de ambos fazem com que a vida pareça maravilhosa. Mas só por alguns meses. Depois, a insegurança de ambos, a falta de entrega e de intimidade intensifica a necessidade de autoafirmar-se. A disputa cresce e o casal desenvolve comportamentos de manipulação e controle. Não raro, vão em busca de relações extraconjugais para reafirmar-se.

A saída é difícil, mas não impossível. O primeiro passo é aprender a refletir, deixar de apreciar a própria a imagem nos espelhos e procurar saber mais sobre si. Depois, é necessário analisar as próprias escolhas e avaliar por que tornaram a vida vazia a ponto de sobrar só corpo e sexo. Em seguida, é preciso buscar o crescimento interior, perguntar-se o que, além do corpo, se tem para oferecer a alguém, quais são as próprias virtudes, além dos princípios e critérios.

Caso se conclua que não há muito a oferecer, é hora de pedir ajuda. Terapias, livros, grupos, cursos, trabalhos voluntários são meios para se desenvolver consistência.

Por último, a pessoa precisa encontrar a razão de querer compartilhar a vida com alguém. Não valem respostas superficiais como “para ser feliz”, “porque sempre quis casar” ou “já vivi meu momento de solteirice”. Essas razões não servem para selecionar um parceiro. Vale mais pensar sobre o significado que se pretende dar à própria vida. Esse é um meio mais seguro de estabelecer critérios confiáveis que ajudarão na escolha do ser amado.