Modo como um parceiro vê o outro às vezes coloca a relação em risco

A maneira como as pessoas vêem o mundo e os outros vem de suas viências, mas nem sempre a interpretação é correta. Casais em especial devem ter consciência disso. Diante de problemas, por exemplo, não basta "traduzir" o que ocorre e posicionar-se. É preciso discutir a questão com o parceiro e esclarecê-la. "Leituras" erradas podem afastar o casal e dificultar a convivência.

É comum se dizer que somos nós, não os outros, os responsáveis por nossas aflições e insatisfações. Mas poucos entendem a firmação. Por isso conto um fato que a ilustra. Um executivo veio procurar ajuda para enfrentar uma situação crítica: a esposa lhe era infiel e ele queria separarse. Conversei com a mulher e constatei que considerava o marido egoísta e controlador, mas não pensava em separação. “Ele é assim com todos. Quando está em casa, liga para a empresa cobrando os funcionários, pois não confia neles. E pensa que pode fazer o mesmo comigo…”

Perguntei-lhe se havia razão para o marido ter desconfianças. Respondeu: “Não. Sou fiel e vivo para a família; mas, com seu jeito de ser, ele me sufoca. Se respondo, diz que estou mentindo. Se não respondo, diz que o estou traindo. Antes ficava ansiosa, mas acho que, quanto mais detalhes eu der, mais controlador ele ficará. Por isso não respondo”.

Voltei a falar com o marido e vi que a suspeita de infidelidade decorria da atitude dissimulada da esposa. Perguntei em que se baseava para acusá-la de infiel. Respondeu: “Ela me dava detalhes de suas atividades, mas agora não responde às minhas perguntas. Esconde que tem um caso”. Quis saber o que fazia quando notava a esposa evasiva. Disse que ficava furioso e exigia que desse detalhes, buscava o que a fizesse cair em contradição.

Os dois sofriam pelas “traduções” que faziam da situação. O marido “traduzia” a atitude da esposa como traição. Quanto mais evasiva ela se mostrava, mais reforçada ficava a crença e mais ameaçado se sentia. A esposa “traduzia” o comportamento inquisidor dele como controle e dominação. Quanto mais insistentes suas perguntas, mais se convencia de que não devia submeter-se. Ele mexia no celular e na bolsa dela, ela saía furtivamente e escondia as suas conversas ao telefone.

O cérebro interpreta o que nos rodeia a partir de nossos modelos ou mapas mentais. São códigos individuais que foram gerados por nossa educação e nossas experiências. Cada pessoa tem uma história própria e passou por experiências diferentes. Cada um tem mapas mentais próprios. Eles são usados para definir as ações que se encaixam nas situações que vive. Se algo não parece bem, eles dão significado à situação e definem nosso posicionamento: podemos nos fragilizar e sucumbir ou nos fortalecer e superar o problema. Nossos problemas têm o tamanho que dermos a eles.

Estamos condicionados a crer, porém, que a causa de nossos infortúnios são os outros. Isso origina a cultura da culpa que impregna as relações. Se algo vai mal, “a culpa é do outro”; portanto, é ele que tem de mudar. E não cobramos mudanças de nós. Esperamos que o outro mude para sermos felizes. Mas, se ambos são infelizes e têm essa expectativa, nenhum deles esboçará sinais de mudança e a situação se agravará. Cobranças e disputas aumentam e geram contendas que podem pôr fim à união.

Quando não assume a responsabilidade pela própria mudança, a pessoa fica obsoleta. Ao culpar os outros, mantém a crença de que seu modo de ser não está em questão, por isso continua “vendo” as coisas do jeito de sempre. A incompatibilidade com os outros aumenta e ela fica desatualizada e sozinha. Quem quer se manter jovem deve criar o hábito de pôr o foco da mudança em si e fazer faxinas freqüentes em seus modelos mentais.