Homens e mulheres esquecem que têm maneiras diferentes de pensar
Em geral, um e outro se comportam com o parceiro como se os dois encarassem da mesma forma situações semelhantes. No entanto, não é assim. A identidade de gênero condiciona a maneira de reagir. Se isso não é levado em conta, naturalmente, a empatia do casal fica muito comprometida. É necessário tentar perceber o outro tendo como referência a realidade dele.
As palavras que nomeiam as experiências subjetivas dos homens e das mulheres são as mesmas. Em seus dicionários internos, porém, os verbetes nem sempre coincidem. O plano dos significados evidencia que, sob a mesma legenda, sustentam-se vivências distintas. Isso explica grande parte da dificuldade que um experimenta quando quer decodificar a realidade do outro.
As diferenças podem ser atribuídas à preponderância do princípio feminino na composição da personalidade da mulher, ainda que o masculino também esteja presente em seu dinamismo, e, claro, do predomínio do princípio masculino na formação da identidade de gênero do homem, embora a dinâmica do feminino faça parte de sua psique. A contraparte da identidade de gênero, o masculino na mulher e o feminino no homem, – é a disposição interna que os capacita a não se estranharem tanto. Mas é comum haver uma espécie de unilateralidade na orientação da consciência, o que dificulta o exercício de empatia e embota a habilidade de um perceber o outro tendo como referência a realidade dele. Em geral, se veem como se compartilhassem as mesmas predisposições e reagissem do mesmo modo diante de estímulos semelhantes, o que na realidade não se verifica. Para ilustrar esse ponto, tomemos um sentimento importante nas relações amorosas: o ciúme.
Quando acometidos por ele, homem e mulher sentem-se excluídos de algo importante da vida do parceiro. Sentem-se preteridos em favor de algo ou de alguém que recebe o interesse da pessoa amada; veem-se ameaçados de perder algum privilégio, de ter seu senso de merecimento ou valor post em questão.
A reação de um e de outro ao perceber-se ciumento, porém, é diferente. A mulher tem maior facilidade em tolerar a dor e as adversidades. O ciúme a fortalece, pois fala sobre a verdade, a potência e a intensidade de seu amor, coisas que ela preza e a qualificam. Em algumas oportunidades, pode levar à depressão, uma vez que ser preterida equivale a ser ameaçada de morte. Em outras, suscita na mulher a energia da guerreira, que por nada se deixará posta de lado ou comparada em qualidade com o que quer que seja: outra atividade, outros interesses e, claro, outras mulheres. Na maior parte das vezes, as duas coisas ocorrem: a mulher fica inicialmente abatida para, depois, reagir com todas as armas. O ciúme é o gatilho para uma questão de honra!
Diferentemente, o homem tolera mal os sentimentos menos harmoniosos. O ciúme, em especial, é algo que revela sua fragilidade, o que o faz sentir-se feminilizado, enfraquecido, vulnerável, diminuído. Raramente entra em competição com o rival; é mais provável que, silenciosamente, se deixe abater pela humilhação. Saber-se ciumento rivaliza com a prontidão do homem para a luta. Vexado, em geral ele nega ou dissimula o que sente, numa tentativa de não tornar tão maiúscula a suposta fraqueza, quer aos olhos da amada, quer aos próprios.
Em resumo: homem e mulher costumam confundir fragilidade (condição evidenciada pelo ciúme) com fraqueza. Isso impede o homem de conhecer e exercer seus aspectos sensíveis e compele a mulher a exercer uma força que a afasta de sua natural sensibilidade. Que bom seria se cada um cuidasse de saborear o que tem de melhor e de mais humano!