Feliz o casal que descobre o amor antes que a paixão chegue ao final

Paixão e amor são sentimentos que os humanos sonham em viver. Paixão é fogo, irrealidade; já o amor é mais tranqüilo e racional. Por isso, o primeiro em geral não dura muito. Basta um pouco da realidade do dia-a-dia e lá vão os parceiros cada um para o seu lado. Sorte de quem percebe os riscos e procura logo construir o amor, que resiste mais aos mares agitados das uniões.

Solange Maria Rosset
Solange Maria Rosset

Ouvi recentemente de uma mulher que ela se sentia privilegiada por ter se apaixonado uma vez. Sentia-se mais privilegiada ainda porque foi apenas uma vez. Esse e outros depoimentos são de pessoas que passaram pelo encantamento e também pelo sofrimento da paixão. Sobreviveram e são capazes de falar sobre o assunto com distanciamento. Quem está mergulhado nesse torvelinho de emoções não enxerga com tanto discernimento.

Ao pensar e pesquisar a respeito do tema, cheguei a algumas conclusões. O tempo da paixão varia de uma pessoa para outra. Depende de muitos fatores, mas posso afirmar que dura mais nas relações em que os parceiros se esforçam para mostrar apenas o que agrada ao outro. Alguns casais conseguem levar isso por longo tempo. Mas é necessário esforço – consciente ou não, intencional ou não – para manter a realidade fora da relação. A intensidade da paixão depende do funcionamento dos parceiros, porém muito mais do motivo da atração inicial. Se o que atraiu ao primeiro olhar ou contato foi algo que é vital para os valores e o momento da pessoa e foi fortemente impregnado de emoção e sensações vai dar maior intensidade à paixão que viverão. Uma mulher, ao encontrar o homem que acabou sendo seu marido por vários anos, ficou encantada com a calma e a segurança que demonstrava. Ela saía de uma união que, à semelhança das anteriores, era repleta de problemas, traições e brigas. E apaixonou-se.

A possibilidade de se apaixonar depende também da condição que a pessoa tem de correr riscos e entregar-se à experiência. Já a ausência de paixão na vida de uma pessoa sinaliza seu nível de controle, seu funcionamento racional e sua independência. Por outro lado, o excesso de facilidade para se apaixonar mostra uma fantasia de que a sua segurança vem de fora, de alguém. Pessoas que têm dificuldade de aprender com as experiências correm o risco de estar sempre apaixonadas por alguém.

É inevitável que a paixão desapareça, pois o tempo, as mudanças e a realidade são poderosos. Uma esposa dizia que, quando o deslumbramento causado pelo coquetel de hormônios diminuiu, depois de mais ou menos um ano, e ela pôde ver o companheiro como ele era realmente, alguns detalhes que pareciam encantadores passaram a ser irritantes. Antes, achava engraçado ele não conseguir encontrar nada na geladeira, mas agora tem vontade de gritar. Ele, que adorava ouvir tudo que ela dizia, agora se cansa com a falação e gostaria de poder “desligá-la”.

Em alguns casos, quando a paixão acaba, o relacionamento não tem energia ou força para continuar. Não sobram motivos para isso. Mas a paixão também pode transformar-se. A passagem para o amor envolve o desenvolvimento de muitos aspectos. Algumas pessoas têm mais facilidades, outras menos. Vai depender da forma como cada uma lida com a realidade, as frustrações e as diferenças.

O amor não tem uma definição única. Cada pessoa vai defini-lo de acordo com o ângulo ou as questões que são importantes para ela. De modo geral, todas as definições apontam para o prazer, ou a facilidade, ou a importância de estar junto à pessoa amada. O que desencadeia o prazer, a facilidade ou a importância muda de pessoa para pessoa, dependendo do que é significativo para ela.

O casal que aprende a usufruir o que o outro e o relacionamento têm de bom, de útil, e ao mesmo tempo é capaz de neutralizar o que o outro e o relacionamento possuem de ruim, superando as dificuldades que surgem no dia-a-dia, tem mais condições de ir navegando pelas mudanças da paixão, do amor, das afinidades e das diferenças.