Em meio à tristeza pelo acidente aéreo em…
...São Paulo, a televisão flagra assessor da Presidência em gesto chulo, do espanhol chulo, grosseiro. Tanto quanto o setor de aviação, o comportamento dos governantes precisa de reforma, do latim reformare, formar de novo.

Chulo: do espanhol chulo, grosseiro, rude, talvez com influência do italiano ciullo, rapaz, redução de fanciullo, por sua vez vindo do latim infans, infante, menino. Passou a designar coisa feia pelos modos estabanados e pouco civilizados de certa juventude inculta, em geral acompanhados de palavrões e gestos obscenos. Chulos foram os gestos do assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, e de seu assessor de imprensa, Bruno Gaspar, quando comemoravam a notícia, veiculada pela televisão, de que teriam sido falha técnica e erro do piloto as causas prováveis do trágico acidente com o avião da TAM, no dia 17 de julho último, em São Paulo, que matou 199 pessoas. Eles estavam felizes porque a informação podia tirar das autoridades federais o peso das acusações de descuido, negligência ou simples omissão.
Hanseníase: do nome do médico norueguês Gerhard Henrik Armauer Hansen (1841- 1912), que isolou pela primeira vez o bacilo da lepra, infecção crônica e contagiosa, caracterizada por lesões na pele, nas mucosas e em nervos periféricos, causadas pelo microrganismo Mycobacterium leprae. Depois da descoberta de Hansen, o nome popular da doença, lepra, cedeu lugar a hanseníase, seu sinônimo. Além do homem, ratos, macacos, coelhos e tatus são transmissores do bacilo. Em todo o mundo existem cerca de 11 milhões de casos, quase todos em países pobres, sendo o Brasil o recordista. Insidiosa, a moléstia pode levar até 20 anos para se manifestar depois que o bacilo entra no organismo humano. Há registros dela no antigo Egito, feitos em hieróglifos datados do ano de 1350 a.C. Também a Bíblia se refere à existência de portadores e de seu isolamento social.
Leprosário: do substantivo masculino leproso, do latim leprosus, aquele que tem lepra, do grego lépra, pelo latim lepra, ambos com o significado de mancha, escamação, é o lugar onde são isolados e tratados os portadores da doença. Alguns leprosários cunharam as suas próprias moedas, de acordo com a crença de que a manipulação do dinheiro seria uma forma de transmissão da enfermidade. No Brasil, o confinamento foi adotado até o ano de 1962, quando uma lei permitiu o convívio social. O tratamento da lepra leva, atualmente, de seis a 12 meses e é realizado gratuitamente em toda a rede pública de saúde. Segundo nos informa o escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar (70) em sua tese de doutoramento, Da Bíblia à Psicanálise: Saúde, Doença e Medicina na Cultura Judaica, quem realizava o diagnóstico da lepra – tzaraat, em hebraico – era o sacerdote: “O diagnóstico da lepra pelo sacerdote do Templo não era exatamente um procedimento médico (no máximo, tratava-se de ‘inspeção sanitária’). Nenhum tratamento, mesmo tentativo, era instituído. O objetivo era rotular o paciente como ‘puro’ ou ‘impuro’. E, se se tratava de ‘impureza’, via-se nas lesões a evidência do castigo divino do qual a pele era um alvo habitual. (…)Até mesmo Maria (Miriam), irmã de Aarão e meia-irmã de Moisés, é castigada com a lepra por ter criticado a Moisés (Números, 12: 1-10). (…) Nem todas as doenças mencionadas na Bíblia resultam de castigo divino (Baruk, 1985, p. 71) mas é óbvio que, quando este castigo ocorre, ele deve ser bem visível: a pele é o local ideal para isto. Mais: implica a segregação do pecador”.
Reforma: de refomar, do latim reformare, formar de novo, reformar. O prefixo “re”, que indica repetição, está presente em muitas palavras da modernidade. Fala-se, por exemplo, em reengenharia disso e daquilo, indicando processos de revisão que têm o fim de levar a melhoramentos – em uma casa ou em uma instituição. No século 16, um movimento religioso e político destinado a mudar as relações entre a Igreja e o Estado levou à chamada Reforma, que deu origem à igreja luterana, nascida do catolicismo e fundada por Martinho Lutero (1483-1546). Após tantas reformas, entre as quais a política, tão anunciadas e jamais feitas no Brasil, surge a reforma da língua portuguesa, que tem o fim de levar à unificação ortográfica entre Brasil e países lusófonos: Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. A nova gramática vai alterar 1,6% do vocabulário luso e 0,5% do brasileiro. Polêmico, o acordo tem despertado críticas mal sustentadas, pois não se trata de proibir as variações da fala e, sim, de unificar a escrita, como já ocorreu com a língua árabe, que, embora falada de diversas maneiras em 15 países, é escrita por todos do mesmo modo. Um do poucos especialistas do país a favor do acordo é Mauro de Salles Villar (68), diretor do Instituto Houaiss de Lexicografia. Se assinado, vigorará a partir de 2009.