Em 2005 um aumentativo ganhou novo sentido na língua…
...portuguesa: mensalão, do latim tardio mensuale, mensal, passou a designar um complexo sistema de corrupção. Sua descoberta desencadeou no país uma rotina, do francês routine, de denúncias que parece não ter fim.

Jurisciência: do latim juris, caso genitivo de jus, direito, e scientia, ciência, palavra criada por Eros Roberto Grau (67), gaúcho de Santa Maria, doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), por analogia com jurisprudência, assim explicada, em entrevista ao jornalista Ricardo Noblat (58): “Na hora que você olha aqueles caras [ministros de tribunais] decidindo… Um, por exemplo, passou pelo Colégio Salesiano e por isso concede ou não concede o habeas corpus pedido (Eros foi aluno salesiano). Outro levou uma vida mais dura quando era criança. É por causa de coisas que se passaram lá atrás que se dá uma decisão com maior ou menor amplitude“. Autor de dezenas de livros de Direito, o ministro apimentou as redações ano passado com a publicação do romance Triângulo no Ponto, que registra expressões como “peitinhos de perdiz“, “válvula de sucção” e “pote de mel“. O livro é ambientado nos anos da ditadura militar pós-64. Como se vê, também a prosa de ficção subsidia a jurisciência, assim como os bilhetinhos trocados por ministros do STF em seus laptops, como ocorreu há pouco. Nas mensagens eletrônicas, os ministros dispensaram o juridiquês do excelso pretório, alcândor conselho ou egrégio sodalício, três das denominações inusitadas do STF, e utilizaram o português coloquial para tratar de estranhos comportamentos de seus pares, de que é exemplo o bilhete enviado pela ministra Carmen Lúcia Antunes Rocha (53) ao colega Enrique Ricardo Lewandowski (59): “O Cupido acaba de afirmar aqui do lado que não vai aceitar nada“. O Cupido da frase é o criador do neologismo jurisciência.
Mensalão: de mensal, do latim tardio mensuale, de mensis, mês, da raiz indo-européia me, que deu em grego métron, medida, e em latim metiri, medir. Esse aumentativo entrou para a língua portuguesa em 2005, com a finalidade de designar um complexo sistema de corrupção de parlamentares, identificado como “organização criminosa”, conforme denúncia oferecida ao Supremo Tribunal Federal por Antonio Fernando de Souza (59), procurador-geral da República. Ainda antes de ser julgado, já resultou na queda de vários ministros e na cassação ou renúncia de deputados, incluindo o denunciado como “chefe da quadrilha”, o deputado federal e então ministro José Dirceu (64). São 40 os acusados e respondem por oito crimes: formação de quadrilha, peculato, corrupção ativa, corrupção passiva, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e gestão fraudulenta. O Brasil tomou conhecimento do esquema por meio das denúncias feitas pelo deputado Roberto Jefferson (54), do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ao jornal Folha de S. Paulo em junho de 2005. Foi designado relator do processo no STF o ministro Joaquim Barbosa (52), o primeiro magistrado negro na mais alta corte do país. Dos 40 denunciados, cinco são mulheres.
Rotina: do francês routine, rotina, de route, rota, caminho, designando o conjunto de atos praticados todos os dias, sem alteração, o hábito de não mudar hoje o que foi feito ontem e assim sucessivamente. Jean- Jacques Rousseau (1712-1778), baseado no substantivo, fez o verbo routinier, cujo equivalente no português é rotinizar. Parem de Falar Mal da Rotina dá título a uma peça de teatro de Elisa Lucinda (49), escritora, atriz, roteirista e diretora. O espetáculo ocupa-se de hábitos cotidianos, transformados em cárceres que eliminam a criatividade. Tem por base poemas dos livros O Semelhante e Eu Te Amo e suas Estréias. Ela interpreta 56 personagens em 150 minutos de elogios à rotina. A peça concebe o teatro tal como os antigos gregos o inventaram, tendo a função social de levar a platéia à catarse, pela exibição de comportamentos comuns aos espectadores.
Topiqueiro: do inglês topic, tópico, assunto, remotamente do grego topikós, tópico, ligado também a tópos, lugar, e topographía, topografia. Alguns medicamentos são ditos de uso tópico, o que significa que sua ação é exercida no lugar em que são aplicados. Entretanto, a palavra topiqueiro fez outra viagem. Na década de 1990, chegou ao Brasil, trazido pela Asia Motors, um veículo identificado com a palavra inglesa topic, automóvel utilitário, construído especialmente para transporte coletivo. No português coloquial das ruas, a palavra passou a ser pronunciada paroxítona (com acento na penúltima sílaba) e não proparoxítona (na antepenúltima), sua pronúncia original no inglês. O condutor da topique foi logo denominado topiqueiro, tal como o da perua já era perueiro. O Aurélio ainda não registra perueiro, mas o Houaiss, já. Nenhum dicionário registra ainda topiqueiro, embora os topiqueiros sejam milhares.