Dinamismo dos tempos modernos não favorece os vínculos estáveis

Relacionamentos longos tornaram-se tão raros que já são até objeto de pesquisa científica. Como no ambiente profissional, também no amor hoje se valoriza mais a rotatividade e a multiplicidade de experiências do que a estabilidade. A agitação de nossa época é tanta que muitas vezes nem dá aos casais o tempo mínimo para apurar a sua sintonia.

Talvez em nenhuma outra época na história moderna as relações amorosas tenham sido tão curtas. Os múltiplos estímulos e oportunidades, os meios rápidos e simultâneos de comunicação, a velocidade ávida e a urgência dos desejos caracterizam um período que não parece favorecer a permanência serena dos vínculos. Casais que ficam juntos por 20 anos ou mais tornaram-se raros a ponto de cientistas americanos decidirem estudá-los. Eles usaram aparelhos de ressonância magnética para avaliar se os parceiros continuavam apaixonados após tanto tempo. Constataram que sim: eram evidentes os sinais de prazer ao se colocar um diante da imagem do outro.

Casais mais velhos se orgulham dos anos que ficaram juntos. Não só pela alegria do prazer recíproco desfrutado ao longo da vida, mas porque no passado a duração do laço era considerada um exemplo de amor que deu certo, prova de estabilidade e determinação, e até de caráter e seriedade. Assim também era em relação ao trabalho, o valor de um profissional sendo medido pela quantidade de tempo em que permanecia no emprego. Mas os valores quase se inverteram: é o novo espírito do tempo. Hoje, há tendência a se apreciar o dinamismo, a mudança, a rotatividade, o número de experiências que se tem. Ficar estático é perder novos desafios de expansão e crescimento.

O mesmo vale para o amor: os parceiros já não têm paciência com impasses inevitáveis em todo vínculo estável. Afinal, vivemos uma época de respostas prontas, não de superação de obstáculos ou de indagações. Esta época aparentemente libertária, porém, é a que submete a vida pessoal a mais pressões externas: sobre como devemos comer, nos vestir, nos comportar. Precisamos ter forte personalidade para não sermos “tatuados” por esta época e podermos discernir, em meio a tanta influência, o que desejamos de fato.

A verdade que precisamos encarar é: o que é bom para um pode não ser o melhor para todos. O tempo, por exemplo, não pode ser critério isolado que influa no destino de uma relação. Não pode haver coerção para alongá-la ou encurtála por quaisquer outras razões que não sejam os motivos interiores ao próprio casal. Se não há felicidade, prazer, desejo de ficar junto, criatividade no vínculo, o melhor é cada um procurar seu caminho. Claro que um mínimo de tempo se requer para apurar a sintonia – mas às vezes, atualmente, nem isso é concedido!

Vínculos estáveis dependem de sorte e talento na escolha do objeto amoroso, da presença de certos ingredientes mentais e emocionais e até das disposições genéticas de cada um. Não é à toa que os pesquisadores notaram que os casais juntos há 20 anos têm “mapa amoroso cerebral” semelhante ao de animais que mantêm os mesmos parceiros por toda a vida. Mas isso não quer dizer que, ao nascer, já sejamos predestinados à sorte ou ao azar no amor. Hoje, precisamos ter cuidado para não sermos reduzidos a um mapa genético.

O que sempre nos diferenciou como a única espécie capaz de construir uma civilização foi nossa subjetividade, nossa capacidade de pensar e de ter uma linguagem. Por isso, fazemos tecnologia, arte, cultura – e amor. Pois entre a terra de nossa genética e o céu de nossa alma há muito mais coisas do que sonha nosso vão reducionismo.