Quando a Orquestra Sinfônica do Paraná tocou os acordes iniciais de Marechiare e o tenor espanhol José Carreras (61) soltou a voz para os primeiros versos dessa música romântica do italiano Francesco Tosti (1846-1916) – Quanno sponta la luna… -, as 2000 pessoas que lotavam o Teatro Positivo, em Curitiba, perceberam que presenciavam um momento único. “Talento é coisa rara hoje em dia, e são poucas as vezes que a gente tem a chance de estar diante de uma das maiores vozes do mundo. Carreras é sempre maravilhoso”, reconheceu a atriz Rosamaria Murtinho (72), uma das convidadas de CARAS para o concerto, que integrou a agenda de eventos de comemoração dos 15 anos da revista, na noite que teve a parceria do Banco HSBC. Foi o segundo dos dois concertos que marcaram a inauguração do belíssimo teatro, o maior do Paraná, construído pela Universidade Positivo.
“A sala é esplêndida e o brasileiro tem uma grande tradição musical”, elogiou Carreras. “Mesmo assim, o que importa não é o conhecimento do público, mas conseguir transmitir emoções.” De fato, emoções não faltaram ao show. “Eu estava numa grande expectativa, e a apresentação ganha força quando a gente conhece a história pessoal do Carreras”, contou a atriz Totia Meireles (49), outra das convidadas da revista, que estava acompanhada pelo marido, Jaime Rabacov (53). “O Jaime é quem conhece mais música erudita, e estou aprendendo com ele. Como também canto, ouvir o Carreras é como uma aula”, disse ela. Feliz também estava a atriz Daniela Escobar (39), fã de carteirinha de Carreras. “Já o ouvi cantar em outras oportunidades, inclusive com a Sarah Brightman, e não podia deixar passar mais esta vez. Só a CARAS para nos proporcionar tanta beleza”, comentou.
Espanhol de Barcelona, Carreras viveu mais de 60 papéis em óperas e concertos líricos que o credenciaram como um dos maiores tenores da atualidade. Em 1988, depois de vencer a leucemia, construiu a Fundação Internacional José Carreras pela Luta Contra a Leucemia, dedicada à pesquisa científica e ao auxílio de portadores da doença. Todo mês, faz um concerto beneficente em prol da fundação.
Sua consagração popular internacional veio nos Jogos Olímpicos de Barcelona, de 1992, quando foi diretor musical das cerimônias de abertura e encerramento e se notabilizou pela interpretação da canção-tema, Amigos Para Sempre, que gravou ao lado da soprano Sarah Brightman. Fará nova aparição em Pequim, neste ano, na abertura dos Jogos Paraolímpicos. “Estou motivado e entusiasmado para participar dos jogos. Os atletas têm vontade e determinação extraordinárias”, afirmou o tenor.
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Um dia antes, Carreras fez questão de visitar duas instituições: o Hospital Erasto Gaertner, referência no combate ao câncer no Paraná, e o Hospital de Clínicas. Em conversa com os jornalistas, lembrou de Luciano Pavarotti, morto em setembro passado, com quem, ao lado de Plácido Domingo (67), ficou conhecido com o espetáculo Os Três Tenores. “Ninguém poderá suprir a ausência de Pavarotti em Os Três Tenores. Não há possibilidade de cantarmos com outro tenor. Seria um equívoco ético”, afirmou. Carreras lembrou que o grande feito do grupo foi fazer chegar a música erudita a um público mais heterogêneo. “Foi a melhor de todas as virtudes que tivemos nos concertos. Gente que não estava acostumada a freqüentar passou a se interessar por um tipo de música nova. Conseguimos adeptos para nossa causa.”
Nas apresentações em Curitiba, o tenor foi acompanhado pelo maestro argentino Enrique Ricci, que regeu a orquestra brasileira, e pela soprano chilena Veronica Villaroel, com quem dividiu o palco. Ricci já acompanhara Carreras em seu primeiro concerto em Curitiba, na Pedreira Paulo Leminski, com a Orquestra Sinfônica Brasileira, em homenagem aos 300 anos da capital paranaense, em 1993. “Mas já estive aqui antes e me lembro bem. Em 1975, inaugurei o fosso da Orquestra do Teatro Guaíra”, contou o maestro. Veronica, que vive em Nova Iorque, garantiu estar muito feliz. “É a primeira vez que canto com José Carreras e que venho ao Brasil, país irmão do Chile, que sempre desejei visitar”, revelou a cantora, que recebeu aplausos exaltados logo depois de interpretar a ária Un Bel Dì Vedremo, da ópera Madama Butterfly, do italiano Giacomo Puccini (1858-1924).
Na platéia, Glen Valente (43), diretor de marketing do HSBC, impressionava-se com a acústica do teatro, inspirado no teatro de Epidaurus, construído no século IV a.C. Diz-se que se uma moeda caísse no centro do palco desse teatro grego seria ouvida em todos os 15000 lugares da platéia. “Aqui também o som é perfeito, e a visão do palco, idem”, comentou Valente para Rogério Mainardes, diretor de marketing do Grupo Positivo. “A idéia é essa, oferecer a todas as pessoas a possibilidade de desfrutar da totalidade do espetáculo”, agradeceu Mainardes.
Já no camarote do HSBC, Emilson Alonso (52), presidente do banco no Brasil, explicava o patrocínio do espetáculo. “Carreras é sinônimo de internacionalidade, assim como o HSBC”, afirmou Alonso, ao lado da mulher, Luciane (39).
O diretor de relações institucionais do HSBC, Hélio Duarte (61), o publicitário Mario D’Andrea (49), diretor de criação da agência JWT Brasil, e o presidente da Companhia de Habitação do Paraná, o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca (52), e sua mulher, Margarita Sansone (62), estavam entre os que desfrutaram da noite. “Fez bem ao meu coração curitibano reencontrar, ao lado de Margarita, Carreras, que eu convidei para cantar em 93, quando era prefeito da cidade”, comentou Greca, que ainda destacou: “A soprano Veronica foi uma grata surpresa, valorizada pela orquestra paranaense, que está impecável”.
O repertório da noite agradou em cheio. Enquanto Veronica optou por árias impactantes como Pace Pace Mio Dio, da ópera Forza del Destino, de Giuseppe Verdi (1813-1901), e Io son L’umile Ancella, da ópera Adriana Lecouvreur, de Franceso Cilea (1866-1950), Carreras interpretou uma seleção irresistível de canções italianas e espanholas, como Chitarra Romana, de Eldo di Lazaro (1902-1968), e Granada, escrita por Agustín Lara (1897-1970), que encerrou o concerto. O dueto Lippen Schweigen, da opereta A Viúva Alegre, de Franz Léhar (1870-1948), também ganhou aplausos entusiasmados da audiência. E a música preferida do tenor, qual é? Carreras respondeu com uma frase do amigo Plácido Domingo: “Perguntar qual é minha canção favorita é como perguntar qual dos meus filhos é o meu favorito”.