Barreira criada por amigos do ex às vezes até impede novas relações
Sob o argumento de que se trata de traição, amigos do antigo parceiro ou parceira mantêm supostos novos pretendentes a distância. Dizem que não é correto namorar ou "ficar" com o ex de alguém do mesmo círculo — o que é absurdo, já que o casal separado muitas vezes frequenta os mesmos lugares e as mesmas festas. É preciso ter ética, mas também fugir da manipulação.
Uma situação bizarra tem se tornado corriqueira e está impedindo o início de muitos relacionamentos. Acompanhe comigo, leitor: Ana rompe o namoro com José e ele, infeliz, só depois de alguns meses se dispõe a circular por baladas e festas. Numa delas, reencontra Antônia, que conhecera quando ainda namorava Ana. Livres, eles acabam “ficando”.
Ao ver o casal, uma amiga de Antônia e de Ana (a ex de José) intervém: em particular, ofende Antônia, diz que se envolver com o ex de uma amiga é coisa de vadia. Humilhada, a moça deixa a festa. José termina sem saber por que Antônia saiu sem se despedir e eles nunca mais se encontram.
Na primeira vez que ouvi um relato assim, me pareceu que as pessoas haviam perdido o bom senso, mas considerei um fato isolado. Entretanto, a situação está virando norma. Pessoas de mesma idade e classe social têm interesses semelhantes e amigos em comum. Muitos até trabalham juntos. Esses hábitos se mantêm depois do rompimento. Seria natural, portanto, que novos namoros e “ficadas” ocorressem com pessoas conhecidas dos ex. Mas existe um patrulhamento para que isso não aconteça.
Entre amigas, aquela que se interessar pelo ex de alguma será rejeitada. Esse “pacto” faz com que reprimam o interesse que possam ter pelos ex das amigas. Também impede a liberdade de escolha do rapaz que namorou alguma delas. Caso se interesse por uma amiga da ex, ela o manterá a distância com medo de ser criticada. Em resumo, são as amigas da ex que selecionam com quem ele poderá ficar.
O mesmo ocorre quando dois amigos têm interesse numa mesma moça: se ela se sente atraída por um deles, mas foi o outro que se aproximou primeiro, não haverá chance de vir a conhecer aquele que a atrai. “Pega mal dar em cima da menina que o amigo está xavecando” e, por isso, o segundo se sente obrigado a deixar o caminho livre para o que chegou primeiro. Quem perde é a moça: ou se relaciona com um lamentando não ser o outro, ou procura um terceiro, ou fica sozinha.
A situação assume proporção descabida quando alguém que está interessado em uma pessoa “toma posse” dela ao comentar o interesse. Suponha, leitor, que uma moça sinta atração por um rapaz. Ao dizer às amigas que está “de olho” no moço, ele se torna sua “propriedade”. Nenhuma outra, se for sua amiga, pode desejá-lo ou “ficar” com ele! Mesmo que o rapaz deixe claro seu desinteresse por aquela que anunciou querê-lo.
Ninguém gosta de ver o ex ou a ex numa nova relação, claro. Também se entende que alguém fique triste por não ter sido escolhido no lugar do amigo ou da amiga. Mas são dobramentos da vida afetiva. Negá-los ou querer controlar os outros para que não ocorram é imaturidade.
Todos têm encantos e dons cativantes, mas eles não funcionam o tempo todo e nem com todos. É preciso ter humildade e reconhecer os próprios limites. É preciso estabelecer a diferença entre a ética nas uniões e o jogo de manipulação e controle. Afinal, quanto tempo deve passar para que alguém se considere livre da antiga relação e possa namorar ou ficar com quem quiser?