Ambiente competitivo no trabalho contamina as relações amorosas

Quem dedica tempo e energia demais à vida profissional, em empresas que valorizam a rivalidade e menosprezam as emoções, tende a levar a habilidade de desenvolver jogos de poder para todas as suas relações. Casais precisam ficar atentos para perceber quando estão sendo impregnados por tal comportamento. Só a consciência da situação pode determinar uma mudança de atitude.

Pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral com executivos brasileiros, homens e mulheres, revelou que 65% dos ouvidos investem 70% de seu tempo e energia na vida profissional. Destes, 59% relataram que não estão satisfeitos com tal realidade. Quando perguntados sobre como os parceiros amorosos reagem a ela, 58% disseram que eles estão insatisfeitos; 24%, que são indiferentes; e 18%, que até gostam da situação. Os pesquisadores creem que a indiferença referida pode ser indício de distanciamento afetivo ou de que o executivo não consegue se interessar pelas necessidades afetivas do outro. Se estiverem certos, o índice de insatisfação pode ser maior.

Como foi dito antes, a pesquisa indicou também que esses homens e mulheres estão, eles próprios, insatisfeitos e frustrados com a vida pessoal e a qualidade das relações afetivas que construíram. Não é para menos. Em média, passamos cerca de 13 horas diárias trabalhando, sem contar o tempo que gastamos no trânsito. Tirando as 5 ou 6 horas que precisamos para o sono, não sobra quase nada. Ou seja, despendemos a maior parte do dia em relações de negócios, num contexto dominado pela atitude competitiva e pelo modelo mental “matar para não morrer”. Além disso, um dos princípios básicos das relações corporativas é o distanciamento das emoções. Negócios não combinam com sentimentos, demonstrá-los indica fraqueza e falta de profissionalismo, portanto devem ser reprimidos. A atitude lógica, racional e impessoal é que é bem-vinda. Outro princípio importante nesse mundo é o foco em resultados, não em pessoas. Empresas beneficiam pessoas desde que isso reverta em lucros e em diferenciais competitivos, nunca o contrário.

Ora, quem passa 70% do tempo num ambiente competitivo, impessoal, isento de sensibilidade emocional, que privilegia processos e resultados em vez de contemplar pessoas e suas necessidades afetivas, está sendo diariamente estimulado a desenvolver habilidades que aperfeiçoam negócios, mas são desastrosas nas relações afetivas. Privar-se do parceiro amoroso por que ele passa grande parte do tempo no trabalho é frustrante. Mas de que adianta ter tempo para relacionar-se com alguém que é individualista e competitivo e por isso não constrói relações afetivas prazerosas? E como vamos desenvolver a habilidade para a entrega afetiva se passamos a maior parte do dia negando-a e desqualificando-a? Como vamos aprender a nos comunicar de forma transparente se somos treinados a manipular para controlar pessoas e garantir resultados?

Uma das consequências graves da competitividade no trabalho é desenvolver jogos de poder nas relações afetivas. Manipulações e estratégias de controle são recursos muito usados nesses jogos que objetivam levar o outro a fazer o que não deseja fazer. Treinar diariamente tal postura habitua a pessoa a adotála em outras relações.

O mais comum é que o casal contaminado pela disputa de poder nem tenha consciência dela. Mas basta que se torne consciente para que ambos tenham a chance de adotar atitude cooperativa. Para chegar a isso, porém, as pessoas precisam refletir mais sobre a vida que constroem e sobre a qualidade das relações que desejam. Precisam, enfim, estar cientes do preço que pagam pelo sucesso profissional. Ambiente competitivo no trabalho contamina as relações amorosas Quem dedica tempo e energia demais à vida profissional, em empresas que valorizam a rivalidade e menosprezam as emoções, tende a levar a habilidade de desenvolver jogos de poder para todas as suas relações. Casais precisam ficar atentos para perceber quando estão sendo impregnados por tal comportamento. Só a consciência da situação pode determinar uma mudança de atitude.