Jogos psicológicos infernizam as relações em que não há entrega

Construídos com atitudes que um dos parceiros toma já sabendo que reação provocarão no outro, eles funcionam como recurso para quem quer manipular o companheiro e manter a união longe da intimidade verdadeira. Embora façam sofrer, repetem-se a ponto de se transformar em rituais. Para desvencilhar-se deles, é preciso se dispor a entender o outro — e deixar-se entender por ele.

Jogos psicológicos infernizam as relações em que não há entrega
Jogos psicológicos infernizam as relações em que não há entrega

Escrevi aqui sobre jogos psicológicos nas relações afetivas e alguns leitores me pediram exemplos. Para quem não leu o artigo, explico que esses jogos são conjuntos de atitudes dos quais as pessoas lançam mão para manipular o outro e, ao mesmo tempo, para evitar se entregar à relação. Em geral têm mão dupla e costumam ser inconscientes. Acontecem como rituais. O psiquiatra americano Eric Berne descreveu vários deles. Um dos mais conhecidos, que parece banal, ocorre quando encontramos alguém na rua e travamos o seguinte diálogo:
A: “Olá, como vai?”
B: “Vou bem, e você?”
A: “Vou bem, mas hoje estou com pressa…”
B: “Então, corra. Foi um prazer revê-lo.”
A: “O prazer foi meu. Até outro dia.” Entendeu? Tudo é orientado para o afastamento. Segundo Eric Berne, os jogos têm regras que definem quem pode jogar e como deve fazê-lo. Como eu já disse, assemelham-se a rituais e, por isso, as pessoas sentem como se já tivessem passado pela mesma situação outras vezes.

Parceiros que se relacionam por meio desses “rituais” falam sempre as mesmas coisas e sabem, de antemão, como o outro vai reagir. Por exemplo: João chega em casa e encontra o jornal espalhado pelo sofá. Maria sabe que ele detesta isso, assim como ele sabe que ela se irrita quando ele fuma na sala. Pois é o que faz, após ver o jornal fora do lugar. Quando ela chega, sente o cheiro de cigarro e reage.

Pronto. Eles vão começar uma briga. Ambos sabiam que seria assim, desde o início. A atitude carrancuda de João quando Maria chega e o nariz torcido dela ao entrar são os gatilhos que anunciam o início do jogo. Sabem que vão brigar e nada fazem para impedir.

O primeiro lance é a queixa de um dos dois. Ela fala do cigarro e ele retruca com a reclamação sobre o jornal. No lance seguinte, um dos dois altera a voz e traz do passado um assunto que nada tem a ver com o que está sendo tratado: “Você nunca cumpre o combinado! Prometeu que íamos viajar e até hoje não se organizou para tirar férias!”

O outro aumenta o volume e faz nova jogada, conduzindo-os para a segunda fase do jogo, a da generalização: “É sempre assim. Você só sabe me cobrar”. Nessa hora, um dos dois se torna mais agressivo e indica que o jogo chegou ao fim. João pode dizer, por exemplo: “Um dia eu me encho e vou embora”. Com essa “deixa”, Maria faz o lance final. Corre para o quarto gritando: “Tudo bem! Meu advogado está pronto para quando esse dia chegar.”

Fim do jogo e de mais um dia sem que tenham encaminhado seus reais problemas. O pior é que eles não se separam. Talvez até cheguem perto, mas sempre acham um motivo para continuar jogando.

Jogos como esse são formas de impedir relações honestas e íntimas. Com o passar dos anos, as pessoas têm cada vez menos o que trocar, o que aumenta a necessidade de jogar. Para que João e Maria parassem com os jogos, teriam de ser espontâneos e adotar uma atitude de descoberta mútua. Sem defesas. Em vez de se irritar, deveriam procurar entender o outro. João teria de acreditar que Maria quer fazê-lo feliz e ser feliz com ele – ainda que esqueça o jornal no sofá. E Maria teria de acreditar que João sente o mesmo em relação a ela. Se isso ocorresse, ele não ficaria tão incomodado com o jornal e nem pensaria em fumar na sala.