ETIMOLOGIA
Chefs de cozinha começam a descobrir a chirívia, talvez do árabe karawiya, erva que dá uma raiz parecida com cenoura. Diferente é o caso da linguiça, possivelmente do latim lingua, uma velha conhecida, com a qual preparam pratos que os brasileiros adoram, como a farofa.
Benfeitor: do latim benefactor, bom fazedor, aquele que faz bem o que faz, de acordo com o provérbio latino age quod agis (faze o que fazes), com elipse do advérbio bene, bem, pois supõe que concentrar-se na tarefa é condição suficiente para fazê-la direito. Quando não havia padrão de escrita, era grafado bemffeytor, befector e benfeitor, consolidando-se esta última. Um famoso benfeitor português, o diplomata Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches (1885- 1954), foi condenado à pobreza e à desonra pelo ditador António de Oliveira Salazar (1889-1970). O motivo: cônsul em Bordeaux, na França, deu vistos a 30000 pessoas, entre as quais 10000 judeus. Todas fugiam de Adolf Hitler (1889-1945). A Lista de Aristides foi bem maior do que a de Oskar Schindler (1908-1974) e salvou muito mais gente. Numa eleição sobre os melhores portugueses de todos os tempos, o benfeitor ficou em terceiro lugar, com 13% dos votos, atrás do ditador, que obteve 41%, e de Álvaro Cunhal (1913-2005), o segundo colocado, com 19%, e à frente de dom Afonso Henriques (1110-1185).
Chirívia: de origem controversa, talvez do cruzamento do árabe karawiya, designando erva bienal europeia, de folhas grandes e flores amarelas, tidas por medicinais. No Brasil, é usada como forrageira. Como ocorre com a mandioca, em estado silvestre, sua raiz é venenosa, mas o cultivo a tornou apetecível e nutritiva. Aparece em várias receitas culinárias e às vezes os tradutores a confundem com a cenoura. Os dicionários Houaiss e Aurélio preferem a variante chirivia, sem acento, mas o Michaelis seguiu o espanhol e adotou chirívia. O chef Fernando Villas Boas (43) adotou chirivia, como ensina neste texto: “Frite as fatias de chirivia, um punhado de cada vez. Com uma escumadeira, coloque-as no óleo e deixe fritar por 2-3 minutos, ou até ficarem douradas e crocantes. Com o dorso de uma colher, não pare de mover os crocantes de chirivia ao redor da frigideira, para assegurar uma coloração uniforme”.
Linguiça: de origem controversa, provavelmente de língua, do latim lingua, com sufixo iça. No século XV, encontramos a forma linguainça, alterada para linguinça no século XVII, consolidando-se como lingüiça, que perdeu o trema no recente Acordo Ortográfico. Que o nome tenha nascido do mesmo étimo de língua pode ser intuído da expressão lengalenga, designando conversa monótona e enfadonha que o povo definiu como “encher linguiça”. Linguiça, no sentido denotativo, é a tripa recheada de carne, em especial de porco, crua e temperada.
Melhor: do latim melior, comparativo de bonus, bom. Pode ser interjeição: “melhor assim!”; advérbio: “ela fica melhor de preto”; substantivo feminino: “passou desta para a melhor”, um eufemismo para a morte; substantivo masculino: “nem sempre é o melhor quem vence”; adjetivo de dois gêneros: “difícil encontrar alguém melhor do que ele”. Melhor tem, por vezes, o sentido de maior.
Negra: de negro, do latim niger, de que são exemplos os nomes de lugares nos quais este adjetivo aparece, como em Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP), conhecida em Roma como Archidioecesis Rivi Nigri. E evitou-se a palavra fluminis, genitivo de flumen, rio – desse substantivo veio, por exemplo, fluminense -, porque se trata de ribeirão, um ribeiro grande, mas ainda um riacho e não rio. Em algumas regiões de Portugal, negra designa garrafa de vinho escura, que pode ter influenciado na formação da expressão “disputar a negra”, em jogo no qual o prêmio era o vinho, que poderia ser substituído por uma escrava. Já a expressão “a coisa está preta”, com o significado de grande dificuldade, remete à cor do luto. Desde o século XVI, em velórios e funerias predominavam as roupas pretas. À medida que as pessoas se aglomeravam, tornava-se evidente que a coisa tinha ficado preta, isto é, o moribundo falecera. Paradoxalmente, as vestes negras são próprias de solenidades, como as togas dos juízes.
Preferir: do latim preferere, alteração de praferre, levar adiante, pôr no começo. O étimo está presente em aferir, deferir (aceitar), indeferir (recusar), referir, transferir e outros de domínios conexos.