ETIMOLOGIA

* Deonísio da Silva (60), escritor, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor, coordenador de Letras e das teleaulas de Língua Portuguesa da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, e autor de A Língua Nossa de Cada Dia e Goethe e Barrabás (Editora Novo Século), entre outros 31 livros, alguns deles publicados também em outros países. Blogue: http://eptv.globo.com/blog/ E-mail: [email protected]

Elã: do francês élan, arrojo, impulso. No francês antigo designou uma espécie de veado. Foram seus saltos que ensejaram o sentido de entusiasmo.

Herético: do grego hairetikós, pelo latim haereticus, herege, aquele que escolhe diferentemente do recomendado, como os frades mendicantes, cujos fundadores contestaram a ortodoxia católica. A princípio bemvindos, enalteciam a pobreza e resolviam sérios problemas sociais. Pregavam a falta de ambição e o desapego às coisas terrenas. Foram considerados heréticos e em seu combate, em fins da Idade Média, destacou-se o cardeal francês Pedro D’Ailly (1350-1425), conhecido também como Petrus de Alíaco, autor de diversas obras, entre as quais Imago Mundi (A Imagem do Mundo). Foi encontrado um exemplar deste livro entre os pertences de Bartolomeu Colombo (1450-1515), com 898 anotações do grande navegador e descobridor da América, seu irmão Cristóvão Colombo (1450-1506).

Linfoma: de dois étimos gregos, linfo, água, líquido, e oma, inchaço. Designa tumor dos tecidos do sistema linfático, constituídos pelos vasos sanguíneos e pelas glândulas, que levam água e nutrientes às células e fazem a faxina do organismo, retirando bactérias e resíduos. Em geral é maligno, podendo ser combatido com vários recursos, entre os quais a quimioterapia. A ministra Dilma Roussef (61) admitiu em entrevista coletiva que seus médicos diagnosticaram a presença de um linfoma em seu organismo. O tumor, na axila esquerda, já foi retirado. Em 90% dos casos, a cura é alcançada em dois anos. Linfático aparece como sinônimo de passivo, apático, o contrário de simpático, ambos do mesmo étimo, em Singularidades de uma Rapariga Loura, de Eça de Queirós (1845-1900): “Disse-me ele que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida tinha nesse tempo uma grande concentração. A existência, nesse tempo, era caseira e apertada. (…) Uma grande simplicidade social aclarava os costumes: os espíritos eram mais ingênuos, os sentimentos menos complicados”.

Mendicante: do latim mendicante, declinação de mendicans, aquele que tem mendum, defeito físico, aplicado depois a quem, justamente por não poder trabalhar, precisa pedir esmola para sobreviver, recorrendo à piedade alheia. Pode melhorar de situação, se for emendado, palavra do mesmo étimo, presente também em mendigo e aplicado à mancha na pele, ao estrangeiro, ao erro do copista num texto. As primeiras ordens religiosas, baseadas no voto de pobreza, cujos membros tiravam o sustento da terra, de trabalhos manuais, de aulas ministradas na periferia e, se tudo isso era insuficiente, das esmolas, foram fundadas por São Francisco de Assis (1182-1226) e São Domingos (1170- 1221) no século XIII, daí a designação de franciscanos e dominicanos para seus integrantes. Os dois empreendimentos tiveram tamanho sucesso que no fim daquele século havia 40000 franciscanos e 15000 dominicanos, repartidos em mais de 2000 conventos. O papa Clemente IV (?-1268), que era advogado, preocupou-se com a proliferação e fixou em 300 varas a distância entre as igrejas das duas ordens.

Operada: do latim operata, operada, submetida a uma intervenção cirúrgica, seu uso mais corrente, ainda que se aplique também a ações de outros domínios. Na linguagem coloquial se alternam as perspectivas de quem opera. Diz-se que o médico opera o paciente ou que a autoria é do paciente: “Fulano se operou da apendicite”. São Paulo (século I), na Epístola aos Tessalonicenses, diz: “A palavra de Deus opera em vocês, que creem”.

Pobreza: de pobre, mais o sufixo “eza”, comum na formação de palavras em português. Pobre veio do latim pauper, radicado em paucus, pouco. No conceito original, pobre não é quem tem pouco, mas quem produz pouco. O étimo está ligado a parere, produzir, aplicado tanto às aves poedeiras quanto às mulheres que dão à luz, pois que ambas produzem. A pobreza foi um dos grandes temas do final da Idade Média e alvorecer da Idade Moderna. Cristãos que queriam uma volta da Igreja às origens, preocupados com o desvirtuamento, revoltaram-se contra a ostentação e a riqueza, relembrando a todos, e sobretudo às autoridades eclesiásticas, que Jesus (século I) tinha sido pobre a vida inteira. Foi neste contexto que surgiram as ordens mendicantes. O conflito com a hierarquia católica chegou a tal ponto que o papa João XXII (1245-1334) declarou que a pobreza de Jesus era uma heresia a ser condenada e só servia para combater a ordem social vigente.