ETIMOLOGIA

Cuca, entidade lendária invocada nas canções de ninar, veio do quimbundo yakuka, velha de aspecto aterrorizante, como Grendel, o monstro de Beowulf, uma epopéia, do grego epopoiía, fazer versos, que inspirou a série Harry Potter, da escritora britânica de J.K. Rowling.

Acuar: provavelmente do latim vulgar acculare, pelo francês aculer, acuar, encolher o corpo próximo ao chão, pressionar, pôr alguém em situação embaraçosa. É de domínio conexo ao verbo encurralar, mas este formado a partir do latim currale, curral, significando que o perseguido ficou sem saída, como no caso do filme Encurralado, do diretor americano Steven Spielberg (62), lançado pela televisão nos Estados Unidos, em 1971, sob o título Duel, duelo, com Dennis Weaver (1924-2006) no papel de David Mann, que, dirigindo seu pequeno carro vermelho pelas rodovias da Califórnia, é acuado e perseguido por um enorme caminhão de cor escura.

Bicho-papão: de bicho, do latim vulgar bestium ou bestia, besta, bicho, e papão, do étimo pap, de papar, do latim pappare, comer, com acréscimo de “ão”, indicando que o bicho é grande. Designa monstro imaginário que alude implicitamente à antropofagia, pois é um animal que come carne humana.

Cuca: do umbundo kuka ou do quimbundo yakuka, velha de aspecto assustador, entidade fantástica e ameaçadora, invocada para adormecer as crianças: “Dorme neném que a Cuca vem pegar, papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar”. Sem pai nem mãe por perto, os rebentos são aterrorizados com tais versos. Outras vezes, é invocado o “boi, boi, boi, boi da cara preta”, que recebe insólito convite de quem tem o dever de proteger a criança: “Pega essa menina que tem medo de careta!” O castigo paira no ar também nestes versos: “Vem cá, Bidu, vem cá, Bidu”, ao que Bidu responde: “Não vou lá, não vou lá, tenho medo de apanhar”. “Com tanto susto desde a infância, como queremos que o brasileiro tenha uma autoestima elevada? É quase impossível!”, diz Luiz Marins (59), antropólogo e consultor de empresas, que conviveu com aborígines australianos da Ilha de Bathurst e já lecionou Antropologia em universidades do Brasil e do exterior.

Epopéia: do grego epopoiía, poema sobre feitos heróicos, composto pelo epopoiós, poeta épico. Em grego, épos é palavra, verso, e poiía radica-se no verbo poiêin, fazer. O étimo está presente no francês épopée, no espanhol epopeya e no italiano epopea. Uma das epopéias mais influentes da literatura de língua inglesa é Beowulf, escrita no século VIII, de autoria desconhecida. Beowulf é o lendário herói que vai à corte do rei Hrothgar (século VIII), da Dinamarca, para livrá-lo de Grendel, um demônio antropófago. Sem armas, ele derrota e mata Grendel num duelo. Depois disso, com frequência a mãe do monstro volta ao reino para vingar a morte do filho e continua matando muita gente. Beowulf segue seu rastro e chega à caverna submarina onde ela mora, matando-a também. Passa-se um longo período e o protagonista, agora velho e feito rei, comete outro ato heróico: mata o dragão que tinha sido acordado pelo servo que roubara uma taça de seu tesouro. Mas o soberano morre durante a luta e o poema termina com o funeral do herói. O poema influenciou muito a literatura inglesa e também os livros da série Harry Potter, da escritora britânica J.K. Rowling (43).

Ozônio: do alemão Ozon, ozônio, inspirado no verbo grego ozein, exalar odor, cheirar, pelo francês ozone. Designa um tipo de gás azul pálido, variedade alotrópica do oxigênio, presente na camada da atmosfera terrestre, situada entre 12 e 50 quilômetros de altura, que protege a Terra, mas que já tem um buraco preocupante.

Recuar: talvez do latim vulgar reculare, recuar, pelo francês reculer, andar para trás, retroceder. Também no italiano rinculare está presente o étimo que alude ao ânus, o mesmo acontecendo no espanhol e no catalão. Há outras palavras que escondem o étimo tido por obsceno, como em culatra, parte posterior do cano das armas de fogo, presente na expressão “o tiro saiu pela culatra”. Alguns dicionários dão a palavra com formação autônoma, de re mais cu mais ar. O certo é que o étimo latino culus, sinônimo de anus, ânus, não era tido como chulo. Mas na linguagem científica predominou o grego proktós, presente em proctologia, proctologista e palavras de domínio conexo a essa especialidade médica. Em Portugal, tal étimo só se torna vulgar pelo contexto, pois designa a traseira de modo geral, em pessoas, animais e objetos. Dando exemplos das devastações da crise, o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, noticiou em março último: “No Brasil a soma dos dez maiores bancos recuou de US$ 215 bilhões para US$ 94 bilhões, com queda de 57%, o equivalente a US$ 120 bilhões”.