Parceiro perdulário se controla se o outro é consistente em seus gastos

Ele reclama que ela gasta demais, mas não consegue manter firmeza quando saem juntos para um shopping. Ela adora os mimos e ele se enche de orgulho de poder pagá-los. Desse modo, na hora em que a mulher exagera, ele fica enfraquecido para pôr um limite. Mas esses papéis podem se inverter no momento em que o homem é o gastador e a mulher, a guarda do caixa.

Paulo Sternick
Paulo Sternick

Nas tensões e conflitos que surgem na vida do casal por causa do dinheiro – 80% dos pares brigam em razão disso, dizem as pesquisas -, há singularidades que desafiam clichês e percepções sociais convencionais. O sexo feminino tende a ficar com a fama de perdulário, devido à vaidade das mulheres: roupas, jóias, estética, bolsas, sapatos, perfumes… Enfim, são tantos os desejos! Os homens, supostamente possuidores de maior grau de racionalidade, seriam mais equilibrados e consistentes nos gastos. Ela, cheia de ilusões, sonhos e inconseqüências; ele, realista, prudente e atento não só às contas do fim do mês, como também à poupança para o futuro. De fato, muitas vezes as posturas são mesmo essas e o conflito é tenso, porém criativo: a mulher puxando a corda da satisfação e ele, a do comedimento.

Mas não raro é o contrário: o homem é o gastador “irresponsável” e a mulher é quem controla as finanças e faz o papel da “chata”. Afinal, sofreguidão e prudência não têm gênero nem sexo: homem também gosta de se vestir bem, usar bons perfumes e, claro, ter um reluzente carro novo, enquanto ela se preocupa com o futuro e a educação dos filhos. É salutar que os parceiros possam ser diferentes e tenham papéis complementares, mas nem sempre têm postura coerente e consistente. Os exemplos precisam ser claros e servir como referências firmes. Há, por exemplo, o homem que reclama dos gastos excessivos da mulher, porém ele próprio fraqueja quando sai com ela para um shopping e atende a seus mimos, se orgulhando de deixá-la satisfeita. Às vezes até porque cobiça secretamente comprar um novo carro e fazer dívidas. E aquela mulher que aparentemente tem maior controle de gastos fica maravilhada com a viagem proposta pelo marido ou namorado, ou a nova jóia, apesar do momento de aperto.

Na economia, a lei reza que os desejos humanos são ilimitados, porém os recursos para satisfazê-los, escassos. E o uso do dinheiro não obedece apenas à razão, que, como se sabe, tem limites: impulsos e fatores inconscientes costumam derrubar controles racionais. Estamos longe de ser consumidores realistas e lógicos, porque somos sujeitos à infiltração de fantasias e descontroles. Quando os pombinhos cultivam mentalidade de prudência comum, a vida “rola” de acordo com o que podem. Há prazer na parcimônia e na fruição de gostos compartilhados. Mas há parceiros que disputam seu quinhão no sintoma do gasto compulsivo! Como dois sedentos que rivalizam sobre a posse da água, ou drogados na disputa do tóxico. Atribuem a objetos um valor que está longe de ser objetivo. Muitas vezes, produtos e serviços têm poderosa significação imaginária, além da necessidade. Os mais sequiosos não atentam para o fato de que hoje são bombardeados por seduções de consumo. Elas tentam capturar desejos sempre insatisfeitos – afinal, o sentimento de falta é defeito de fábrica, item de série, marca registrada de todas as pessoas, mesmo as mais abastadas. O parceiro mais consciente precisa de sabedoria para exercer influência e não se deixar tragar pela voracidade consumista, como se para atingir a felicidade fosse necessário obterse bens idealizados – e anunciados! Claro que é legal ter coisas boas e viver bem. Mas “viver bem” não se limita ao prazer materialista, da mesma forma que o amor não se restringe ao sexo. Como lembrou o papa Bento 16 (79), o autêntico exercício de Eros, em vez de ser perder-se na dispersão do gozo concreto e egoísta, deve incluir sua própria transcendência. Os psicanalistas conhecem bem este assunto, ao qual dão o nome de sublimação. Claro que ninguém é de ferro, mas, quanto maior é a insatisfação da parte afetiva e espiritual, mais as pessoas se sentem ávidas por bens, cuja posse aumenta ainda mais a cobiça por bens. Pois são drogas de efeito rápido e provisório, que não preenchem o que falta: o vazio da alma.