O primeiro amigo que o menestrel implacável Juca Chaves (70) teve na vida era um sujeito rabugento, neurótico, sempre metido numa roupa de marinheiro e dono de inconfundível voz esganiçada. Sim, era o Pato Donald, o carismático personagem de Walt Disney (1901-1966) que o cantor, compositor, humorista, poeta e eterno bon vivant conheceu na infância por meio dos quadrinhos publicados no Brasil pela Editora Abril.
Em 1984, quando Donald completou 50 anos, Juca fez questão de ir à Disneyland, na Califórnia, com a mulher, Iara Voigt (55), participar da Great Parade. Foi a glória. "Sou o único brasileiro a abrir um desfile", garante, orgulhoso. Depois da experiência inesquecível, ele voltou ao parque várias vezes. Agora, a convite da American Airlines, decidiu que era o momento de as filhas, Maria Clara (10) e Maria Morena (8), serem apresentadas em Orlando ao namorado da volúvel Margarida. "Prometi a elas que faríamos coisas exclusivas. Elas ficaram emocionadas." Aos 50 anos de carreira, o artista que nasceu no Rio, foi "civilizado em São Paulo e até recentemente estava baiano", conta como se afeiçoou a Donald, fala do casamento de "34 anos, 1 mês e 8 dias" com Iara e de que forma a adoção mudou sua vida.
- Como surgiu esse apreço especial pelo Pato Donald?
- A primeira revista que li na vida foi o gibi Donald e o Anel da Múmia. Eu tinha uns 10 anos e passei a curtir esse mundo da Disney. O Donald foi meu primeiro amigo. É um amor platônico (risos). Ele é um pouco neurótico, vive nervoso por ter de pagar contas e às voltas com a Margarida, sempre atrás do Gastão.
- Em 1984, você abriu o desfile da parada que celebrou os 50 anos de Donald. Como você conseguiu essa proeza?
- Eu conheci um sujeito na Disney que havia morado no Brasil por quatro meses e me disse que arrumaria um lugar ótimo no desfile. Nem acreditei quando ele nos colocou no carro principal e o altofalante anunciou 'do Brasil, o famoso Juca Chaves'. Provavelmente pensavam que a Iara era atriz e eu, o empresário judeu (risos).
- Passado tanto tempo, você decidiu apresentar seu grande amigo e o mundo onde ele vive às suas filhas. O que elas acharam?
- Elas ficaram emocionadas. Adoraram tudo. Maria Morena gostou das coisas mais românticas, relacionadas ao castelo e às princesas. Maria Clara curtiu o resto. Eu queria que elas vivessem uma experiência única, exclusiva, como se não houvesse mais ninguém no parque além de nós. E consegui isso por meio da Vera Cunha, da Travel Now. Houve momentos em que as atrações foram isoladas do resto do público e só nós curtimos.
- Você e Iara adotaram uma criança quando estavam com 60 e 45 anos, respectivamente. Qual o impacto dessa decisão?
- Mudou totalmente nossas vidas. Como de Lula para Obama (risos). Até então, eu e Iara nos bastávamos, mas de repente bateu a vontade de ter filhos. Fomos para a Bahia e adotamos a Maria Clara. Como tudo se deu maravilhosamente bem, adotamos Maria Morena. Tudo sem grandes invenções.
- Como se deu o processo de adoção das meninas?
- Foi tudo oficial. Nos dois casos fomos a uma creche, uma garotinha levantou os bracinhos, Iara a abraçou e não largou mais.
- São 70 anos de vida e 50 de carreira. E as comemorações?
- Menestrel celebra todo dia. Toda semana faço um ou dois shows (Jubileu de Ouro e E o Rei Está Nu), no meu teatro, Espaço Cultural Juca Chaves, no Itaim, em SP. Não sou bi, sou tri: faço sátiras, modinhas e piadas.
- E o famoso caviar, continua frequentando sua mesa?
- Os bons tempos se foram. Estou comendo caviar um a um. Hoje, só sequestrando o esturjão.