Médico explica doença de Guta Stresser, Claudia Rodrigues e Ana Beatriz: ‘As mais afetadas’

Para a CARAS Brasil, o médico Matheus Trilico explica doença de Guta Stresser, Claudia Rodrigues e Ana Beatriz Nogueira e a predominância em mulheres

Guta Stresser, Claudia Rodrigues e Ana Beatriz Nogueira são algumas das atrizes com doença
Guta Stresser, Claudia Rodrigues e Ana Beatriz Nogueira são algumas das atrizes com doença - Reprodução/Instagram/Globo

A esclerose múltipla é uma condição neurológica que atinge diversos famosos brasileiros, entre eles, Guta Stresser, Claudia Rodrigues e Ana Beatriz Nogueira. Mas uma questão chama atenção: por que a maioria dos casos conhecidos envolve mulheres? Seria essa doença realmente mais comum nelas do que nos homens?

Para entender os bastidores dessa diferença, a CARAS Brasil conversou com o neurologista Matheus Trilico, referência em esclerose múltipla, TEA e TDAH adulto. Ele explica os mecanismos por trás da condição e o motivo pelo qual os casos são significativamente mais frequentes no público feminino.

A esclerose múltipla realmente atinge mais mulheres?

De forma direta, o especialista responde: sim. “Existe uma diferença real e significativa na incidência da esclerose múltipla entre os sexos”, afirma Dr. Matheus Trilico. “As mulheres são afetadas numa proporção de aproximadamente 3:1 em relação aos homens, e essa disparidade tem aumentado nas últimas décadas.”

Essa prevalência elevada entre mulheres tem relação direta com os hormônios femininos, que desempenham papel essencial no sistema imunológico, justamente onde a esclerose múltipla age.

O que acontece no corpo de quem desenvolve a doença?

A esclerose múltipla é uma doença autoimune que interfere diretamente no funcionamento do sistema nervoso.

“A esclerose múltipla é uma doença autoimune que ataca a mielina, substância que reveste e protege as fibras nervosas no cérebro e medula espinhal. Quando o sistema imunológico ataca erroneamente essa proteção, ocorrem inflamações que prejudicam a transmissão dos impulsos nervosos, causando sintomas como fadiga, problemas de coordenação, alterações visuais e dificuldades cognitivas“, detalha o neurologista.

Segundo o especialista, o período fértil é um dos momentos mais sensíveis para o surgimento da doença.

“Observamos que a doença frequentemente se manifesta durante a idade reprodutiva, entre os 20 e 40 anos, período de maior atividade hormonal feminina”, explica Trilico.

Os altos níveis de estrogênio podem influenciar diretamente o comportamento do sistema imunológico: “O estrogênio, principal hormônio feminino, possui efeitos complexos sobre o sistema imunológico. Durante certas fases do ciclo menstrual, quando os níveis estrogênicos estão elevados, pode ocorrer uma modulação da resposta imune que favorece o desenvolvimento de doenças autoimunes”, afirma.

Há melhora ou piora durante a gravidez?

Um dos momentos de alívio pode surgir durante a gestação, mas os cuidados devem ser redobrados após o parto.

“Curiosamente, durante a gravidez, quando os níveis hormonais se alteram drasticamente, muitas mulheres com esclerose múltipla experimentam uma melhora temporária dos sintomas, especialmente no terceiro trimestre. Contudo, o período pós-parto pode representar maior risco de surtos da doença”, aponta Trilico.

Essa diferença muda a forma de tratar a doença?

Na prática médica, essa prevalência influencia diretamente o tipo de cuidado oferecido: “Na prática clínica, realmente atendemos muito mais mulheres com esclerose múltipla”, relata o médico. “Isso influencia nossa abordagem, pois precisamos considerar questões específicas como planejamento familiar, uso de contraceptivos e terapia de reposição hormonal.”

O tratamento também evoluiu bastante nos últimos anos, com foco em medicamentos que controlam a progressão da condição.

“O tratamento da esclerose múltipla evoluiu significativamente, com medicamentos modificadores da doença que podem retardar sua progressão. Para as mulheres, o acompanhamento deve ser ainda mais personalizado, considerando as flutuações hormonais e seus possíveis impactos na atividade da doença.”

Só os hormônios explicam essa diferença?

Apesar do protagonismo hormonal, há outros fatores que ajudam a entender a maior incidência da doença em mulheres.

“Embora os hormônios sejam fundamentais, outros fatores contribuem para a predominância feminina na EM. Diferenças genéticas no cromossomo X, variações na resposta imunológica e até mesmo fatores ambientais podem explicar parcialmente essa disparidade”, acrescenta.

O avanço da medicina tem direcionado esforços para entender essa diferença com mais profundidade: “A compreensão dessa diferença entre os sexos é crucial para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes e personalizados, representando uma área ativa de pesquisa na neurologia moderna”, conclui o médico.

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