Internet proporciona â¬Sencontros⬠que podem se tornar amores reais
Por meio de conversas na rede de computadores, é possível atualmente conhecer pessoas e até se apaixonar por elas. Mas a Internet não pode servir de escudo para quem tem medo do amor verdadeiro, que envolve o olhar, o toque, o aconchego e até mesmo as decepções â¬" naturais quando conhecemos muito bem o parceiro e, na maioria das vezes, perfeitamente superáveis.
Um curioso fenômeno resultou da popularização da rede mundial de computadores. Hoje, homens e mulheres envolvem-se sem nunca ter tido um contato real. Sentem-se atraídos um pelo outro conhecendo-se só por e-mails e conversas ao computador. Algumas vezes, dependendo dos recursos tecnológicos disponíveis, podem ouvir a voz do outro e até ver sua imagem por meio de uma webcam. Mas não se tocam, não sentem o calor nem o cheiro do outro. O caso a seguir, que é real, ilustra bem o que vem acontecendo a muita gente. Márcia tem 53 anos e está divorciada há oito. Nesse tempo, teve uma união importante que durou dois anos e hoje está sozinha. É bonita, inteligente, educada e independente financeiramente. Por insistência de amigas, entrou em um site de relacionamentos sem muita expectativa. Mandou uma fotografia. Recebeu e-mails, beijos virtuais, fotos. Interessou-se mais pelos estrangeiros: um americano, um belga, um dinamarquês. Trocaram mensagens. Um deles escrevia todos os dias. Pediu mais uma foto. Márcia mandou. Ele também lhe enviou outra. A conversa foi ficando animada e entraram no programa messenger, que permite conversar em tempo real. Ela sentiu que estava se envolvendo: ligava o computador torcendo para que ele estivesse on-line. Ficou surpresa, pois não esperava sentir-se atraída por alguém que jamais vira. Percebeu que ele era inteligente e sedutor. Depois de mensagens curtas, passou a mandar poemas, declarações de amor. Quando revelou que viria ao Brasil para conhecê-la, no entanto, Márcia se assustou. Afinal, estava ótimo daquele jeito.
Aí é que está o nó da questão. A Internet proporciona uma nova maneira de nos relacionarmos, fazermos amigos, arranjarmos um par. Podemos conversar e trocar idéias com pessoas de todo o mundo. É possível nos apaixonarmos, brigarmos, trairmos, quase tudo que ocorre numa união real, sem nunca encontrarmos com o outro ou a outra. Então, nos perguntamos, será que precisamos conhecer para amar? A verdade é que quando não conhecemos alguém profundamente, ficamos livres para imaginar, fazer fantasias. Já a rotina, a familiaridade, o mergulho em todas as intimidades às vezes até acabam com o amor. Sim, é uma contradição: queremos conhecer o outro, mas, quando isso ocorre, há o risco de descobrimos que é imperfeito, e não aquele príncipe ou princesa encantados que imaginávamos.
O amor verdadeiro implica aceitarmos alguém mesmo sabendo que é diferente de nós, que tem suas idiossincrasias. O problema é que depois que o conhecemos bem, queremos mudá-lo – e quando o conseguimos, deixamos de amá-lo.
O amor virtual talvez seja mais fácil porque alimenta a fantasia. Não importa se só sabemos o que ele ou ela quer que saibamos a seu respeito. O mistério fascina. Muitos se apaixonam de fato e é estranho que isso ocorra, pois não houve contato físico. Mas a paixão é feita de projeções: em geral nos apaixonamos por alguém que está dentro de nós.
Relacionamentos a distância, vale lembrar, não são novidade. Muita gente já caiu de amores por personagens que não conhecia pessoalmente. Os filmes Mensagem para Você, de Nora Ephron, e Nunca Te Vi Sempre Te Amei, de David Hugh Jones, são bons exemplos de histórias do gênero. No primeiro, um homem e uma mulher se apaixonam via e-mail, no segundo, por cartas. Será que isso prova que a alma é mais importante que o físico?
Para alguns, talvez. Mas é preciso ter cuidado. A Internet é mais uma maneira de conhecermos pessoas. Mas não deve servir como desculpa para aqueles que, por temerem relações verdadeiras, se escondem atrás de um computador. Os “encontros” que proporciona, se tiverem valor, podem evoluir e se tornar amores reais. Nestes, porém, não podem faltar o olhar, o contato dos corpos e o aconchego que caracterizam a verdadeira união amorosa.