O amor não é regra, é exceção, e não surge na pressa, exige tempo
Filme "água-com-açúcar" estrelado pela atriz Scarlett Johansson alerta para a fortuidade e a sofreguidão dos encontros amorosos da atualidade. Esvaziados de sentido, eles em geral não autorizam sonhos e expectativas, pois o amor consistente não costuma nascer de um passe de mágica e sim da singularidade, da paciência e do interesse genuíno pelos sentimentos do outro.
Dirigido por Ken Kwapis (51), o filme Ele não Está tão a fim de Você, com as belas atrizes Scarlett Johansson (23) e Jennifer Aniston (40), liderou as bilheterias na primeira semana de exibição no Brasil. Na certa, tocou o coração de mulheres que sofrem iludindo-se com homens evasivos, cheios de pretextos para não selar uma relação. Muitas parecem até adotar a máxima “me engane que eu gosto”. O dilema, no entanto, não é só delas: os homens também podem demorar a sentir a ficha cair quando as mulheres, inversamente, fazem o jogo da sedução e depois mostram que não querem levar nada a sério.
O que nem todos conseguem perceber, tanto no filme como na vida real, é que o amor – aquele que se torna consistente – surge sempre como exceção, uma singularidade. Por isso poetas o cantam, as lágrimas correm em sua vigência e as famílias se unem em festas de 10, 50 ou 400 talheres.
Mas os encontros da atualidade foram, de forma geral, liberados de quase todos os rituais solenes de outrora, do valor sagrado da união, e quase banalizados por um tempo que é capaz de esvaziar de sentido até o milagre da sintonia. Na correria dos tempos modernos e dos fast-food, na luta árdua pela sobrevivência material, nem sempre os pombinhos têm paciência com os demorados trâmites do amor. Afinal, a pulsão urge, o desejo pulsa, a falta aumenta e a solidão assusta. Há um convite invisível e anônimo à pressa. Os encontros ocorrem como num passe de mágica, como se Deus soubesse o que estava faltando e se incumbisse de providenciar – num happy hour, na balada, no barzinho. Então, a cara-metade surge, de repente, e é preciso não perder a chance de agarrá-la.
É verdade que muitos amores começam mesmo por acaso, crescem a partir de transas superficiais, se eternizam quando menos se espera. Mas também é verdade que, na maioria das vezes, relações assim iniciadas não passam mesmo de encontros casuais de ficantes desesperados, maiores abandonados em noites de alta liquidez. Alguns não percebem a diferença e passam por dissabores. O amor, não custa repetir, é exceção, e além disso costuma ser fruto da paciência, da repetição, da vontade de se rever e de prestar atenção aos sentimentos do outro.
Os paradoxos da atualidade fazem até de um filme água-com-açúcar como Ele não Está tão a fim de Você um meio de reflexão sobre o amor, suas possibilidades e dissabores. Seu enredo acaba por contribuir para uma discussão sobre os malentendidos frequentes das relações de nossa época. Época, aliás, em que as liberdades e as ilusões são tantas que convém prestar atenção em certos riscos. Há poucas semanas uma revista de circulação nacional publicou entrevista com o psicólogo canadense Robert Hare (74), um dos maiores especialistas do mundo em psicopatas e perversos – aquele tipo de indivíduo a quem se costuma chamar de “mau-caráter”. Muita gente sofre com possuidores desse distúrbio. “O psicopata é como o gato”, explicou Hare, “que não pensa no que o rato sente. Ele só pensa em comida. A vantagem do rato sobre as vítimas do psicopata é que ele sempre sabe quem é o gato”. Como Jerry, do desenho animado Tom & Jerry. Essa é uma lição interessante para quem não deseja ser presa fácil e cair na rede do sofrimento inútil: ser um pouco mais esperto, como Jerry, e informar-se sobre as intenções de seu gato – ou gata.